Português - sujeito aprisionado
“No último período do texto, o autor enfatiza a capacidade que tem o ser humano de expressar o objeto de seu desejo e destaca como esse seu desejo o aprisiona.”
gabarito - CORRETO
O item interpreta corretamente a estrutura lógica do último período do texto: há ênfase na capacidade simbólica do sujeito de falar seu desejo e na forma como esse desejo o constitui e o submete ao mesmo tempo. Isso corresponde a uma crítica refinada à ideia de autonomia racional do sujeito.
Desejo como elemento que aprisiona:
- A continuação: “e se torna sujeito desses desejos que a sujeitam” estabelece um duplo movimento de constituição e subjugação.
- A pessoa se torna “sujeito dos desejos” → ela é constituída como sujeito por meio do que deseja.
- Mas esses desejos “a sujeitam” → há uma dimensão de submissão, de sujeição simbólica.
- Ou seja, o desejo é, ao mesmo tempo, aquilo que constitui e que aprisiona o sujeito — o que corresponde perfeitamente à análise freudiana-lacaniana da constituição do sujeito pelo Outro e pela linguagem.
ANÁLISE FUNDAMENTADA PELO ESTRUTURALISMO
1. A linguagem como estrutura anterior ao sujeito — Saussure, Benveniste, Lacan
O texto ecoa a concepção estruturalista de que a linguagem não é instrumento do sujeito, mas condição de sua existência.
- Para Saussure, a linguagem é um sistema de signos autônomo.
- Para Benveniste, “é na linguagem que o sujeito se constitui como tal”.
- Para Lacan, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” — e o sujeito do desejo é um efeito da cadeia significante.
Assim, “fala seus desejos” não expressa uma vontade pré-existente, mas sim uma produção simbólica do desejo via linguagem.
2. O desejo como efeito do significante — Lacan
Na frase “se torna sujeito desses desejos que a sujeitam”, temos um jogo com o duplo sentido de “sujeito”:
- sujeito como agente simbólico (o que deseja e fala),
- e sujeito como aquele que é submetido, sujeitado ao desejo que emerge da linguagem.
Para Lacan:
“O sujeito do inconsciente é o sujeito do significante.”
Portanto, o desejo não é livre, não é autônomo: ele é produzido pela ordem simbólica, pelas faltas, pelas interdições estruturantes (nome-do-pai, castração simbólica etc.).
O texto explicita isso ao dizer que o sujeito se torna sujeito dos desejos “que a sujeitam” — ou seja, ele é produzido por eles, dominando-o, o que corresponde exatamente à sujeição do sujeito ao Outro (o lugar simbólico da linguagem e do desejo).
O item 13 está corretíssimo à luz da teoria estruturalista da linguagem e da psicanálise lacaniana: ele reconhece que o sujeito fala seus desejos (produção simbólica) e é por eles sujeitado, pois o desejo, para o estruturalismo, não é uma potência livre do eu, mas uma cadeia significante que o constitui e o atravessa.