Questão 6 item 37 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). De acordo o texto, a Divina Comédia, de Dante, pro

Enunciado:

[Na Divina Comédia] chega-se a uma experiência imediata da vida, uma experiência que sobreponha todas as outras; a uma concepção do ser humano que tanto se espera saber, um esclarecimento quanto penetre profundamente até as raízes do sentimento, um esclarecimento das suas emoções e paixões, que leva, sem inibições, à caída participação imediata e à admiração de multiplicidade e grandeza. E, dentro desta participação imediata e admirada do ser humano, a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina; põe a(mesma) a seu serviço e a obscurece. A figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus. A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização; a poderosa moldura bompeu-se pela supremacia dos quadros que envolvia.

Erich Auerbach. Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 175

Julgue os itens a seguir, relativos ao texto de Erich Auerbach sobre a Divina Comédia, obra do poeta italiano Dante Alighieri escrita no século XIV:

Texto do item:

De acordo o texto, a Divina Comédia, de Dante, produz “uma experiência que sobrepuja todas as outras”; afirmação a partir da qual é possível inferir que a “concepção do ser humano” artisticamente plasmada pelo poeta italiano já se separava da experiência vital do período medieval e de sua estrutura social teocêntrica.

Participe das discussões abaixo gratuitatmente. Caso não tenha conta no ClippingCACD, basta criar uma conta gratuitamtente. Não é necessário assinar para participar.
Fez a prova? Junte-se ao ranking e confira o gabarito em https://depoisdaprova.com.br .

ERRADO.


Análise detalhada

A afirmação contém dois problemas centrais: um de fidelidade textual e outro, mais grave, de interpretação do argumento de Auerbach.


1. Problema textual: “sobrepuja” × “sobreponha”

O enunciado atribui ao texto a expressão “uma experiência que sobrepuja todas as outras”, entre aspas, como citação direta. Porém, o excerto transcrito traz “sobreponha” (do verbo sobrepor: colocar-se acima de, sobrepor-se), e não “sobrepuja” (do verbo sobrepujar: ultrapassar, exceder). Embora a passagem apresente erros tipográficos evidentes (“bompeu-se” por rompeu-se), a troca — intencional ou não — altera sutilmente o sentido: sobrepor-se a algo é subsumi-lo, absorvê-lo em si; sobrepujar é ultrapassá-lo, deixá-lo para trás. Essa diferença tem consequências interpretativas relevantes para a inferência proposta.


2. Problema central: a inferência não está autorizada pelo texto

A afirmação propõe que, a partir da tese de Auerbach, é possível inferir que a concepção dantesca do ser humano “já se separava da experiência vital do período medieval e de sua estrutura social teocêntrica”. Essa formulação distorce o argumento auerbachiano, que é de natureza dialético-paradoxal, e não linear ou progressista.

O que Auerbach de fato argumenta:

O texto transcrito é claríssimo:

“A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização.”

Ou seja, Dante não se separa do arcabouço medieval; ao contrário, ele é a realização mais plena da cosmovisão figural cristã. É por estar tão profundamente imerso no pensamento medieval — com sua interpretação figural da história, sua ordenação providencial, sua hierarquia divina — que sua representação do humano adquire tamanha potência. A destruição da moldura teocêntrica é um efeito paradoxal e involuntário da plenitude artística, não uma separação consciente ou deliberada.

O próprio texto diz:

“a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina”

Note-se: o elemento humano em Dante está baseado na ordem divina (baseada na ordem divina). Ele não parte de fora do sistema teocêntrico; ele nasce dentro dele e, ao ganhar supremacia artística, volta-se contra o próprio fundamento. É o que Auerbach chama, na célebre metáfora final, de “quebra da moldura”: os quadros (as figuras humanas) são tão poderosos que a moldura (a estrutura teológica figural) se rompe.

Para Auerbach, esse rompimento ocorreu devido ao que ele chamou de “quebra da moldura”, tipificado em Dante, quando a figura do homem foi colocada à frente da figura de Deus.

Em Dante, a figura do ser humano é colocada na frente da figura de Deus, tornando a figura independente da moldura e apontando para o que viria a ser o Humanismo.

Portanto, a tese de Auerbach não é de separação, mas de superação interna: Dante habita plenamente o universo medieval e, ao realizá-lo com intensidade máxima, faz emergir um humanismo que aponta para o futuro, mas que não constitui ainda um rompimento com a experiência vital de seu tempo.

A diferença conceitual decisiva:

O que o item afirma O que Auerbach argumenta
Dante já se separava da experiência medieval Dante realizou plenamente a essência medieval
Movimento para fora do sistema Superação de dentro do sistema
Leitura teleológica/linear Leitura dialético-paradoxal

Dizer que Dante “já se separava” é adotar uma leitura anacrônica e teleológica — como se Dante estivesse conscientemente caminhando rumo ao Renascimento. Auerbach, ao contrário, mostra que o resultado humanista é consequência não intencional da intensidade com que Dante viveu e representou a cosmovisão figural cristã.


Conclusão

A inferência proposta no item — de que a concepção do ser humano em Dante “já se separava da experiência vital do período medieval e de sua estrutura social teocêntrica” — não é autorizada pelo texto de Auerbach. O argumento do autor é justamente o oposto: Dante representa o ápice da experiência medieval, e é a supremacia artística de suas figuras humanas, forjadas dentro do sistema teocêntrico, que paradoxalmente rompe a moldura desse mesmo sistema. Não há separação; há destruição-pela-realização. O item, portanto, é ERRADO.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.

Correta. A pergunta é sobre uma inferência do texto e a resposta se dá pelo texto e também pela informação dada no enunciado ( escrita no séc XIV). O período final do texto sustenta a inferência afirmada: Dante colocou em sua obra a essência cristã e a destruiu na mesma realização; o conteúdo ultrapassa os limites da moldura pré-determinada.