Vou tentar colaborar, mas temo mais atrapalhar do que ajudar.
Sua pergunta é difícil porque envolve duas camadas de incerteza: a do futuro, que ninguém domina, e a sua história pessoal, que só você conhece. Então só consigo falar em primeira pessoa, torcendo para que algo do que eu diga te ajude.
Temos semelhanças: também sou da área do Direito, mas sempre fui mais apaixonado por humanas do que pelo próprio Direito. Também tenho lacunas para preencher e luto contra o custo de oportunidade — porque escolher estudar uma coisa é deixar de aprofundar outra. Mas, se for pensar bem, essa angústia é comum a todos por aqui. Qualquer aspirante ao Itamaraty vive esse mesmo dilema.
Seria bonito dizer que tudo valerá a pena, mas a matemática é implacável. São cerca de 20 vagas por ano, umas 200 por década. Apenas uma minoria ínfima poderá dizer, com absoluta certeza, que valeu abdicar de família, viagens, especializações, casamento, filhos — tudo em nome desse sonho. São cerca de nove mil candidatos por ano para vinte aprovações. Essa é a realidade nua e crua.
Por isso, não são nossas semelhanças que ajudam a responder sua dúvida, mas talvez nossas diferenças. Eu já me formei há 17 anos, tenho 42 anos, duas décadas de tribunal, sou casado e pai de dois filhos. Ainda me pego perguntando se devo me aprofundar no Direito e buscar concursos jurídicos para cargos que pagam melhor ou continuar estudando cooperação Sul-Sul, balança comercial, formação territorial do Brasil… o CACD me acompanha desde 2018. Fiz inscrição para o de 2025 e nem fui. Já desisti incontáveis vezes, cancelei o Clipping, mas sempre volto. Ainda estou aqui.
Meu objetivo não é matar seu sonho, é cutucar para que você descubra se ele é mesmo seu. Se você cancelasse o Clipping, sentiria falta? Os livros de História e PI continuariam na estante? Você ainda pararia para ver o Jornal Nacional quando o assunto fosse internacional? Eu paro. E é por isso que, apesar de tudo, continuo.
Você ainda está na faculdade, não perdeu tempo. Eu, sim, sinto o peso de cada escolha porque o tempo se encurta. Hoje penso ao contrário: parto do pior cenário — o de que não vou passar — e reflito se o caminho vale mesmo assim. Esse exercício mental, que antes parecia derrotista, virou libertador: quando aceito a possibilidade do fracasso, percebo que continuo estudando não por esperança cega de aprovação, mas porque algo em mim se alimenta desse processo.
Mesmo que eu nunca seja diplomata, mergulhar em História, Geografia, Literatura e idiomas me transformou de uma forma quase irreversível. Aprender novas línguas foi como ganhar múltiplas almas — cada uma trazendo um humor, uma lógica, um jeito de sentir o mundo (inclusive lembro de um texto da prova de 2024 que abordava exatamente isso: o poder quase mágico que os novos idiomas têm de mudar nossa percepção de mundo, como se cada língua fosse uma lente diferente que nos faz sentir e pensar de outra forma). Tudo isso me tirou do automático e me deu prazer genuíno, mesmo quando o esforço foi solitário e as recompensas eram invisíveis.
Quando comparo essa jornada com a que seria dedicada exclusivamente às matérias jurídicas, vejo o contraste. Não me imagino dedicando horas a hipóteses de incidência tributária de ICMS, teorias da pena ou o valor provas orais no direito administrativo por paixão intelectual. Seria apenas um meio de obter aprovação em concurso, não algo que alimente minha curiosidade ou me faça sentir realizado. Nada disso me traria o mesmo brilho nos olhos que estudar o Congresso de Viena ou a Revolução Haitiana, temas que me fazem querer abrir mais livros, não fechá-los.
Esse percurso, ainda que não me leve a um cargo, me deixou mais rico por dentro, mais curioso, mais atento ao mundo e mais disposto a dialogar com ele. Isso, para mim, nunca será perda. É ganho puro — e talvez o maior ganho seja justamente esse: perceber que a jornada faz sentido mesmo sem o troféu no final.
Então a pergunta que deixo é: onde seu coração vibra mesmo sabendo que talvez não chegue lá? No Direito ou na Diplomacia? É aí que está sua resposta para uma alocação de tempo sem culpa.