(CACD 2025) item 28 - (Língua Portuguesa) Em fui a Moscou e a outros lugares medonhos

“Em ‘fui a Moscou e a outros lugares medonhos’ (primeiro período), a dimensão semântica do adjetivo ‘medonhos’ alcança, no texto, um sentido específico: o de causar medo.”


:brain: Análise semântica com base no texto de Graciliano Ramos

Trecho citado:

“fui a Moscou e a outros lugares medonhos situados além da cortina de ferro exposta com vigor pela civilização cristã e ocidental.”


1. Sentido literal vs. sentido textual

O enunciado afirma que “medonhos” tem um sentido específico: “o de causar medo”. Mas o texto de Graciliano Ramos não corrobora essa leitura literal.

Ao longo do relato, o autor descreve:

  • repulsa à viagem por razões pessoais e físicas (aviões, hotéis, deslocamento);
  • ironia quanto à representação do Leste Europeu como “ameaçador”;
  • uma linguagem marcadamente subjetiva e crítica, com marcas claras de humor seco e autoironia.

A palavra “medonhos” aparece próxima da expressão “cortina de ferro exposta com vigor pela civilização cristã e ocidental”, o que sugere que Graciliano está parodiando ou ironizando a forma como o Ocidente rotulava tais regiões.


2. Ironia e deslocamento do medo

Se o medo está presente no texto, ele não está nos “lugares medonhos”, mas:

  • nos aviões (“aparelhos assassinos”),
  • nas casas desconhecidas,
  • no deslocamento forçado da rotina.

A recusa de viajar é chamada por ele de “divagação insensata”, não porque temia Moscou, mas porque não queria sair de sua toca — o medo é do movimento, do novo, do fora da inércia.


3. Sentido conotativo e ambíguo de “medonhos”

O adjetivo “medonhos” aqui funciona mais como:

  • recurso estilístico-irônico, refletindo o discurso ocidental sobre o outro ideológico (URSS);
  • uma carga conotativa ambígua, que provoca e questiona o leitor;
  • um efeito de dramatização cínica, típico da prosa de Graciliano.

:books: Fundamentação teórica (semântica e pragmática literária)

Segundo a linguística textual e a crítica literária:

  • o contexto e o ethos do enunciador redefinem os sentidos lexicais;
  • palavras como “medonho” são polissêmicas e, em registros literários, frequentemente carregam valores conotativos, irônicos ou críticos;
  • a dimensão semântica específica literal (“causar medo”) é insustentável diante da construção estilística irônica do texto.