Questão 11 item 62 - (História do Brasil - 1a Fase - CACD 2026). Todos os cineastas que participaram do chamado Cin

Enunciado:

Considerando aspectos das artes no Brasil republicano, a partir do Estado Novo de Vargas, julgue os itens seguintes.

Texto do item:

Todos os cineastas que participaram do chamado Cinema Novo foram censurados a partir de 1964 e a audiência de suas produções ficaram restritas à intelectualidade de esquerda.

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ERRADO.

A afirmativa comete duas generalizações absolutas que não correspondem à realidade histórica do Cinema Novo brasileiro: (1) que todos os cineastas foram censurados a partir de 1964 e (2) que a audiência ficou restrita à intelectualidade de esquerda. Vejamos por quê:


1. Nem todos os cineastas do Cinema Novo foram censurados

Embora a censura tenha se intensificado após o Golpe de 1964 — e especialmente após o AI-5 em dezembro de 1968 —, o uso do quantificador “todos” torna a afirmação incorreta. A relação entre os cinemanovistas e o regime militar foi mais complexa e paradoxal do que uma simples oposição frontal.

Nos anos 1970, o cinema brasileiro vivenciou um paradoxo: era apoiado financeiramente pelo mesmo Estado autoritário que praticava a censura.

Durante a década de 70, o grupo que ficou conhecido como Cinema Novo sofreu transformações em decorrência da política cultural do regime instaurado com o golpe de 1964. Com uma proposta de desenvolvimento industrial para o cinema brasileiro, a ditadura civil-militar criou, em 1966, o Instituto Nacional de Cinema (INC) e, em 1969, a Empresa Brasileira de Filmes (EMBRAFILME).

Mais significativo ainda:
determinados diretores do Cinema Novo decidiram-se por buscar o diálogo com o Estado.
Ou seja, houve colaboração ativa de cineastas do Cinema Novo com o aparato estatal.

A pedra de toque foi a indicação do produtor/cineasta Roberto Farias para a direção geral da Embrafilme, com o apoio explícito da classe cinematográfica. Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, a nata do Cinema Novo, estiveram nas articulações para essa indicação.
Isso demonstra que os próprios líderes do Cinema Novo atuaram dentro das estruturas do Estado militar.

Carlos Diegues, cineasta do Cinema Novo, disse que apoiava a Embrafilme porque era “the only enterprise with sufficient economic and political power to confront the devastating voracity of the multinational corporations in Brazil.”


2. A audiência NÃO ficou restrita à intelectualidade de esquerda

Esta é a segunda grande incorreção. Os filmes produzidos pelos cinemanovistas — e por cineastas que passaram por esse movimento — alcançaram amplo público, nacional e internacionalmente, especialmente na fase de colaboração com a Embrafilme.

Após a revolução cultural provocada pelo Cinema Novo e em meio à ditadura militar, o cinema nacional viveu vários períodos de altos baixos. O público dos anos 70 e 80 viu desde as pornochanchadas produzidas na Boca do Lixo, em São Paulo, até clássicos como “Bye, bye Brasil”, de Cacá Diegues; “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos; e principalmente “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto, que levou mais de 10 milhões de espectadores ao escurinho do cinema.

Internacionalmente,
surpreende que a imagem do Brasil enquanto produtor de cinema tenha sido construída por películas aparentemente tão distantes das evidentes intenções do regime.

Além disso, vale lembrar que filmes como Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, foram sucesso de público; Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, tiveram repercussão em festivais internacionais como Cannes e Veneza, alcançando audiências muito além do circuito intelectual de esquerda brasileiro.


3. A complexa relação Cinema Novo × Estado Militar

A partir do fechamento do regime no fim de 1968, a censura passa a exercer fortíssima influência na produção nacional, e o cinema entra num paradoxo vivenciado por toda a década de 1970: era financiado pelo Estado autoritário que o censurava, evitando assim críticas ao regime.

O governo militar percebeu no cinema a possibilidade de estabelecer o diálogo com parte dos intelectuais e também canais para consolidar a identidade nacionalista.

Portanto, a relação foi de negociação, adaptação e, por vezes, cooptação, e não de censura absoluta e generalizada sobre todos os participantes do movimento.


Conclusão

A afirmativa é ERRADA porque:

  • Generaliza indevidamente ao usar “todos” — vários cinemanovistas colaboraram com o Estado via Embrafilme e continuaram produzindo e exibindo seus filmes;
  • Erra ao restringir a audiência — filmes de cineastas do Cinema Novo alcançaram milhões de espectadores no Brasil e obtiveram reconhecimento internacional em festivais;
  • Ignora o paradoxo fundamental dos anos 1970: o mesmo Estado que censurava também financiava o cinema brasileiro, inclusive de diretores ligados ao Cinema Novo.

Dica para o CACD: Questões que utilizam termos absolutos como “todos”, “nenhum”, “exclusivamente” ou “restrito” devem ser analisadas com extrema cautela. Na história, raramente existem absolutos — e o Cinema Novo é um caso exemplar de como a relação entre arte e poder é marcada por tensões, negociações e contradições.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.

Todos? Termo absolutizante…incompatível com a História :slight_smile: