Questão 13 item 64 - (História Mundial - 1a Fase - CACD 2024). A proposição dos Catorze Pontos representou uma de

Enunciado:

Desde a Segunda Guerra Mundial, o ordenamento externo do poder norte-americano tem sido, em grande medida, mantido à parte do sistema político interno. Uma perspectiva comum e a continuidade dos objetivos separam a administração do império do governo da terra natal. Até certo ponto, o contraste entre os dois é uma função da distância geral entre o horizonte das chancelarias ou corporações e o dos cidadãos em todas as democracias capitalistas. No caso norte-americano, isso decorre também de outras duas particularidades locais: o provincianismo de um eleitorado com conhecimentos mínimos do mundo externo e um sistema político que — em contradição com os pais fundadores — tem cada vez mais dado um poder virtualmente irrestrito ao Executivo na condução dos assuntos externos.

Perry Anderson. Império. In: A política externa norte-americana e seus teóricos. São Paulo: Boitempo, 2015, p. 11 (com adaptações)

Tendo o texto precedente como referência inicial, julgue os itens a seguir, relativos à história estadunidense no século XX.

Texto do item:

A proposição dos Catorze Pontos representou uma decisão monocrática do presidente Woodrow Wilson, sem apoio parlamentar, em um contexto em que o isolacionismo ainda tinha grande força nos EUA.

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CERTO

A afirmativa é correta e pode ser justificada em três dimensões principais:


1. Caráter monocrático da decisão

Os Catorze Pontos foram essencialmente uma iniciativa do Poder Executivo, formulados por Wilson e sua equipe de assessores.
Os Catorze Pontos foram baseados na pesquisa do The Inquiry, uma equipe de cerca de 150 conselheiros liderada pelo assessor de política externa Edward M. House, sobre os temas que provavelmente surgiriam na antecipada conferência de paz.

Os detalhes do discurso foram baseados em relatórios gerados pelo “The Inquiry,” um grupo de cerca de 150 cientistas políticos e sociais organizado pelo conselheiro e amigo de longa data de Wilson, o Coronel Edward M. House.

Não houve qualquer participação formal do Congresso na elaboração dos pontos.
Usando essas recomendações, Wilson apresentou um programa de catorze pontos em uma sessão conjunta do Congresso em 8 de janeiro de 1918.
Ou seja, Wilson apresentou o programa como um fato consumado ao Legislativo — um discurso presidencial com diretrizes de política externa, sem qualquer tramitação ou deliberação parlamentar prévia.


2. Ausência de apoio parlamentar

Embora o discurso tenha sido inicialmente bem recebido no plano retórico —
o discurso foi imediatamente saudado nos Estados Unidos e nas nações Aliadas, e até pelo líder bolchevique Vladimir Lenin, como um marco de iluminismo nas relações internacionais
—, o Congresso nunca formalmente endossou os Catorze Pontos como plataforma política. Na prática, a oposição parlamentar se materializou fortemente quando Wilson tentou implementar sua visão:

Embora muitos americanos apoiassem o tratado, o presidente encontrou resistência no Senado, em parte pela preocupação de que a adesão à Liga das Nações forçaria o envolvimento dos EUA nos assuntos europeus. Cerca de uma dúzia de “Irreconciliáveis” republicanos recusaram apoiá-lo inteiramente, enquanto outros senadores republicanos, liderados por Henry Cabot Lodge, de Massachusetts, insistiram em emendas que preservassem a soberania dos EUA e a autoridade do Congresso para declarar guerra.

O Congresso norte-americano, segundo alguns pela intransigência política de Wilson, recusou autorização para a filiação dos Estados Unidos à Liga das Nações, o que, sem dúvida, em muito a enfraqueceu politicamente.

Como observa uma fonte brasileira de preparação para o CACD:
O Congresso não apenas criticou a pretensão de Wilson, como rejeitaria totalmente os tratados de paz da guerra, em especial o de Versalhes, mergulhando o país novamente em uma escalada isolacionista.


3. Força do isolacionismo

O isolacionismo era, de fato, uma força poderosa na política norte-americana.
Não apenas militar, mas também o engajamento político dos Estados Unidos nos assuntos externos, especialmente os europeus, foi muito limitado nas décadas seguintes devido à doutrina do isolacionismo, significando a contenção dos EUA em se envolver em conflitos que não os afetassem diretamente.

Os Estados Unidos da América não se vincularam ao Tratado de Versalhes, em virtude de o Senado não o ter subscrito, pretendendo regressar ao isolacionismo afirmado pela doutrina de Monroe.

A própria consciência desse contexto isolacionista pesava sobre Wilson:
“Wilson was very conscious that America didn’t want to get in the war,”
conforme relata o historiador John Thompson.


Conexão com o texto de Perry Anderson

A afirmativa se encaixa perfeitamente na tese de Anderson apresentada no enunciado. A formulação unilateral dos Catorze Pontos pelo Executivo, sem participação congressual, ilustra exatamente o fenômeno que o autor identifica: o poder virtualmente irrestrito do Executivo na condução dos assuntos externos, em contradição com a concepção original dos Founding Fathers de equilíbrio entre os poderes (checks and balances). Wilson agiu como formulador solitário da grande estratégia norte-americana para o pós-guerra, e o provincianismo e isolacionismo do eleitorado — e de seus representantes no Congresso — acabaram por rejeitar essa visão.

Em síntese, todos os elementos da afirmativa são historicamente defensáveis: (i) o caráter monocrático da decisão; (ii) a ausência de endosso formal parlamentar; e (iii) o contexto de forte isolacionismo nos EUA.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.

De certa forma essa afirmativa dialoga com a anterior, já que no período posterior a Primeira Guerra Mundial o isolacionismo ainda é muito forte e o poder Legislativo pode ser interpretado como uma “caixa de ressonância” social, o que resulta no veto do Senado a participação dos EUA na Liga das Nações. Para além desse veto, é importante lembrar da assinatura da paz em separado com a Alemanha em 1921 (o Tratado de Berlim) e com a Áustria no mesmo ano (Tratado de Paz EUA-Áustria)