Questão 14 item 69 - (História Mundial - 1a Fase - CACD 2024). Embora a Revolução Industrial seja predominantemen

Enunciado:

No mundo acadêmico de língua inglesa, os debates em torno do conceito de Early Modern History passaram a ser mais consensuais alguns anos à frente, prova de que a periodização não é apenas uma questão central, mas também mais sensível da historiografia. Até hoje, não se estabeleceu um consenso absoluto no que diz respeito aos marcos cronológicos dessa época. De modo análogo, o início do período designado como Late Modern, ou simplesmente Modern, costuma ser marcado em mais de um momento: meados do século XVIII, com o Iluminismo ou, mais tardiamente, com os acontecimentos e consequências da Revolução Francesa, entendidos em geral como o pilar político e intelectual da Modernidade; na virada do século XVIII para o século XIX, ainda com a primeira Revolução Industrial e o começo da guinada hegemônica do capitalismo, focando, assim, nas transformações socioeconômicas; ou somente após as primeiras décadas do século XIX, quando já se anunciavam as feições políticas dos Estados-nação e as garras do imperialismo, ou quando os resquícios do regime feudal desapareciam de fato.
Como se pode ver, a variedade de termos e balizas cronológicas na criação de um período é resultado de uma operação historiográfica que convida historiadores e historiadoras, leitores e leitoras a investigar o vigor ou a tibieza do passado histórico na definição do tempo presente.

André de Melo Araújo et al (org.). A Época Moderna. Uma introdução. In: A Época Moderna. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024, p. 13 (com adaptações)

Julgue os itens a seguir, a partir do texto precedente.

Texto do item:

Embora a Revolução Industrial seja predominantemente interpretada como um processo nacional identificado com a Grã-Bretanha e, em menor escala, os Países Baixos, a economia asiática nos setecentos era também pujante, o que permite pensar a formação da economia mundial moderna por uma chave policêntrica.

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ERRADO.


Análise detalhada

A afirmativa contém dois elementos principais: (1) a associação da Revolução Industrial com a Grã-Bretanha e, “em menor escala”, os Países Baixos; e (2) a pujança econômica asiática no século XVIII como base para uma interpretação policêntrica da economia mundial. Enquanto o segundo elemento está correto, o primeiro contém um erro factual/historiográfico grave que compromete o item.


1. A Revolução Industrial e os Países Baixos: erro central

A afirmativa sustenta que a Revolução Industrial é “predominantemente interpretada como um processo nacional identificado com a Grã-Bretanha e, em menor escala, os Países Baixos”. Isso é incorreto.

Os Países Baixos (Holanda/Neerlândia) não são identificados com a Revolução Industrial, nem mesmo em “menor escala”. Pelo contrário, a ausência da industrialização nos Países Baixos é um dos grandes enigmas da história econômica.
A pergunta central que Joel Mokyr formulou em seu célebre artigo foi justamente: “Why was the Netherlands not a leader in the first Industrial Revolution (1760-1830) despite its advanced economy in the eighteenth century?”

Apesar de sua posição como economia comercializada, sofisticada e urbana, os Países Baixos foram um latecomer (retardatário) na Revolução Industrial.

Na Holanda, uma combinação de resquícios culturais da Era de Ouro e eventos políticos desfavoráveis após 1780 se combinaram para atrasar o desenvolvimento tecnológico. Como economia pequena e aberta, o país só superou seus obstáculos e se juntou ao progresso industrial ocidental moderno após 1860.

A industrialização chegou tarde aos Países Baixos: por um lado, porque o país possuía apenas pequenos depósitos das matérias-primas essenciais — carvão e minério de ferro — e, por outro, porque a “Era de Ouro” foi seguida de um longo período de estagnação econômica no século XVIII.

Portanto, a historiografia econômica não associa os Países Baixos à Revolução Industrial — pelo contrário, investiga por que ela não ocorreu lá. O país tipicamente apontado como o segundo a se industrializar, logo após a Grã-Bretanha, é a Bélgica (que, até 1830, era parte do Reino Unido dos Países Baixos, mas cuja industrialização se deu sobretudo nas províncias meridionais — a futura Bélgica — e não no norte holandês).
A industrialização avançou rapidamente no sul, onde a Revolução Industrial permitiu que empreendedores e trabalhadores se combinassem em uma nova indústria têxtil, impulsionada pelas minas de carvão locais.


2. A pujança econômica asiática no século XVIII: correto

A segunda parte da assertiva — de que a economia asiática nos Setecentos era também pujante — está alinhada com a historiografia revisionista mais recente.

Kenneth Pomeranz, em The Great Divergence (2000), demonstrou que, ainda em 1750, a expectativa de vida, o consumo e os mercados de produtos e fatores eram comparáveis entre a Europa e a Ásia Oriental. Além disso, regiões-chave da China e do Japão não estavam em pior situação ecológica do que as da Europa Ocidental.

Estudos revisionistas de meados ao fim do século XX retrataram os padrões de vida na China do século XVIII e na Europa pré-Revolução Industrial como comparáveis. A economia chinesa não estava estagnada e, em muitas áreas, especialmente na agricultura, estava à frente da Europa Ocidental.


3. A chave policêntrica: correto

A ideia de uma economia mundial moderna policêntrica é efetivamente sustentada pela historiografia.
Pomeranz descreve uma “polycentric world economy” na qual cada núcleo — Europa Ocidental, China, Japão e Índia — enfrentava o paradoxo malthusiano compartilhado de populações crescentes e limitações ecológicas.

Essa perspectiva foi reforçada também por Andre Gunder Frank em ReORIENT: Global Economy in the Asian Age (1998), que argumenta que a economia global era centrada na Ásia até o século XIX.


Conclusão

O item é ERRADO porque associa os Países Baixos à Revolução Industrial, ainda que “em menor escala”. A historiografia econômica é enfática: os Países Baixos foram um retardatário na industrialização, tendo se integrado ao progresso industrial moderno somente após 1860. O segundo país comumente associado à Revolução Industrial, após a Grã-Bretanha, é a Bélgica, não os Países Baixos. Embora os demais elementos da assertiva (economia asiática pujante e chave policêntrica) estejam corretos, o erro sobre os Países Baixos torna o item incorreto como um todo.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.

Como eu mencionei na Live, toda a estrutura da argumentação tem respaldo no Era das Revoluções do Eric Hobsbawm e nas interpretações mais recentes de História Global.

Agora, como muitos colocaram como errado, podem utilizar os argumentos apresentados aqui na plataforma para tentar ao menos a anulação