CERTO
A afirmativa está correta e reflete com precisão o arcabouço teórico da Geografia Agrária crítica brasileira, especialmente os conceitos desenvolvidos por Ariovaldo Umbelino de Oliveira e Bernardo Mançano Fernandes, autores fundamentais para o estudo da questão agrária no Brasil.
1. A dupla dimensão da formação do campesinato
A afirmativa descreve dois processos simultâneos e complementares de formação (criação e recriação) do campesinato, exatamente como proposto pela literatura:
a) Reprodução ampliada das contradições do capitalismo
Para Oliveira (1991; 2004; 2010), o desenvolvimento do capitalismo no campo ocorre de maneira desigual, combinada e contraditória, ou seja, o capital ao reproduzir suas relações capitalistas, promove, ao mesmo tempo, relações não capitalistas.
Isso significa que o capitalismo, ao se expandir, não simplesmente destrói o campesinato, mas paradoxalmente o recria.
O processo contraditório de reprodução ampliada do capital, além de redefinir antigas relações de produção, subordinando-as à sua reprodução, engendra relações não-capitalistas igual e contraditoriamente necessárias à sua reprodução. Assim, o desenvolvimento contraditório do modo capitalista de produção, particularmente em sua etapa monopolista, cria, recria, domina relações não-capitalistas de produção como, por exemplo, o campesinato.
O conceito de “reprodução ampliada das contradições” é central aqui: a luta de classes (entre camponeses e latifundiários, entre trabalhadores rurais e agronegócio) é uma expressão fundamental dessas contradições que, dialeticamente, geram as condições para a persistência e recriação do campesinato.
b) A política camponesa de construção de sua existência
Fernandes (2008) identifica expressamente essas duas dimensões.
A primeira é a reprodução ampliada das contradições do capitalismo. A outra condição de criação e recriação do trabalho camponês é uma estratégia de criação política do campesinato: a luta pela terra. É por meio da ocupação da terra que historicamente o campesinato tem enfrentado…
a lógica excludente do capital.
A ocupação e a conquista do latifúndio, de uma fração do território capitalista, significam a destruição – naquele território – da relação social capitalista e da criação e/ou recriação da relação social familiar ou camponesa. Este é o seu ponto forte, que gera a possibilidade da formação camponesa, da sua própria existência.
2. O território como condição para a reprodução da vida
A parte final da afirmativa — “possuir território possibilita a reprodução da vida” — está em plena consonância com a concepção territorial de Fernandes.
De acordo com Bernardo Mançano Fernandes, “os movimentos socioterritoriais têm o território não só como trunfo, mas este é essencial para sua existência.” Como é o caso, no campo, dos camponeses, indígenas, quilombolas, ribeirinhos etc., que não se reproduzem, enquanto classe ou modo de vida, sem o seu território.
A terra, o trabalho e a família formam uma tríade que compõe a racionalidade camponesa. Na terra, dá-se a relação entre a vida e o trabalho, a partir da composição e integração familiar.
3. Síntese do raciocínio
| Elemento da afirmativa |
Correspondência teórica |
| Reprodução ampliada das contradições do capitalismo |
Oliveira (1991; 2004) – desenvolvimento desigual, combinado e contraditório do capital no campo |
| Luta de classes |
Contradição estrutural do capitalismo que recria o campesinato (expropriação → luta pela terra → recampesinização) |
| Política camponesa de construção da existência |
Fernandes (2000; 2008) – criação política do campesinato via ocupação/conquista da terra |
| Território possibilita a reprodução da vida |
Fernandes – o território é essencial para a reprodução material e simbólica do campesinato |
A afirmativa, portanto, sintetiza corretamente a dupla determinação da formação do campesinato: uma decorrente da lógica contraditória do próprio capital (que ao mesmo tempo expropria e recria o camponês) e outra decorrente da agência política do camponês (que, pela luta, conquista o território como condição existencial). Trata-se de uma formulação coerente com o paradigma da questão agrária, em oposição ao paradigma do capitalismo agrário (de Abramovay), que prevê a inevitável metamorfose do camponês em agricultor familiar integrado ao mercado.
Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.