Questão 3 item 20 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). No texto, o foco narrativo na primeira pessoa, ide

Enunciado:

Ainda antes do dia de São José, o prefeito inaugurou a escola, que teve a construção — com telhas de cerâmica que nenhuma casa de trabalhador poderia ter — concluída no verão. O prédio recebeu o nome de Antônio Peixoto, pai dos Peixoto. Homem que, diziam, foi proprietário da fazenda, mas nunca havia posto os pés ali. Todos os moradores estiveram presentes à inauguração: as mulheres de lenço na cabeça; os homens de chapéu e enxada na mão; as crianças rindo da novidade, um pequeno prédio de três salas, e sem o tal banheiro que ninguém tinha mesmo. Da família Peixoto se fez presente também a irmã mais velha, que nunca havia visto por ali. (…) Quando retiraram o papel que cobria a placa com o nome de seu pai falecido, ela quase caiu, num choro convulsivo que fez com que seus irmãos a amparassem para que não desabasse de vez no chão. Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai, que, na noite em que celebrava o jerê de santa Bárbara, havia pedido, quase ordenado, o cumprimento da promessa de construção da escola feita à santa no passado. Mas ele estava lá, de pé, um dos primeiros da audiência, segurando a mão de Domingas, e ao lado de minha mãe com o rosto satisfeito. Pouco importava, poderia ver em seu semblante a luta que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara para que tivéssemos um destino diferente do seu, para que não fôssemos analfabetos. Meu pai não sabia nem mesmo assinar o nome, e fez o que estava ao seu alcance para trazer uma escola para a fazenda, para que aprendêssemos letra e matemática.

Itamar Vieira Junior. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2018, p. 95-96

Julgue os itens que se seguem, em relação ao texto precedente.

Texto do item:

No texto, o foco narrativo na primeira pessoa, identificado tanto na flexão verbal quanto no sistema pronominal, evidencia a ênfase na função emotiva da linguagem, sendo o ponto de vista de um personagem interno à narrativa recurso argumentativo que confere veracidade aos acontecimentos narrados.

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ERRADO.


Análise detalhada

A afirmativa contém elementos parcialmente corretos, mas apresenta erros conceituais importantes que a tornam incorreta no conjunto. Vejamos parte a parte:


1. Foco narrativo em primeira pessoa — CORRETO neste ponto

De fato, o texto apresenta um narrador-personagem (narrador homodiegético, na terminologia de Gérard Genette), como se percebe claramente nas marcas linguísticas:

  • Flexão verbal: “tivéssemos”, “fôssemos”, “aprendêssemos”
  • Sistema pronominal: “a meu pai”, “minha mãe”, “seu semblante” (referindo-se ao pai), “Meu pai não sabia…”

O narrador é interno à história, participa dos eventos e tem relação afetiva direta com os personagens centrais. Até aqui, sem problemas.


2. Função emotiva (expressiva) — PARCIALMENTE CORRETO, mas reducionista

A função emotiva (ou expressiva), conforme a teoria das funções da linguagem de Roman Jakobson, centra-se no emissor e manifesta suas emoções, sentimentos e avaliações subjetivas. Há, de fato, passagens de forte carga emocional no texto:

  • “Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai” — marca de indignação/ressentimento;
  • “a luta que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara” — admiração pelo pai;
  • “para que não fôssemos analfabetos” — tom de gratidão e reconhecimento.

Contudo, dizer que o foco em primeira pessoa “evidencia a ênfase na função emotiva” é reducionista. O texto é predominantemente narrativo e descritivo, o que aponta para a função referencial (centrada no contexto/referente) como igualmente proeminente, e apresenta forte trabalho estético com a linguagem, remetendo à função poética. A função emotiva está presente, mas não é correto afirmar que a primeira pessoa, por si só, a torna predominante.


3. “Recurso argumentativo que confere veracidade” — PRINCIPAL ERRO

Este é o ponto central que torna a afirmativa errada.

a) O narrador em primeira pessoa não é um “recurso argumentativo”.

O texto em análise é de natureza narrativa literária, não argumentativa. A primeira pessoa constitui uma técnica narrativa (recurso da narratologia), e não um recurso da argumentação. Chamar o foco narrativo em 1ª pessoa de “recurso argumentativo” é uma imprecisão terminológica grave, pois confunde tipologia textual narrativa com tipologia textual argumentativa.

b) A primeira pessoa não “confere veracidade”.

Em teoria literária e narratologia, o narrador em primeira pessoa (homodiegético) cria efeitos de subjetividade, parcialidade e proximidade afetiva — mas não de veracidade. Pelo contrário, um dos conceitos mais consolidados da narratologia moderna é o do narrador não confiável (unreliable narrator, conceito de Wayne C. Booth, em The Rhetoric of Fiction, 1961), segundo o qual o narrador-personagem tem uma perspectiva limitada, enviesada e potencialmente distorcida dos fatos.

O que a primeira pessoa pode criar é verossimilhança (plausibilidade interna da narrativa) e efeito de testemunho, mas isso é muito diferente de veracidade (correspondência objetiva com a verdade dos fatos). Na passagem em questão, o próprio texto revela o viés do narrador: ele lamenta que seu pai não tenha sido reconhecido, o que demonstra uma perspectiva parcial e emocionalmente investida, e não uma voz neutra que “confere veracidade.”


Síntese

Aspecto da afirmativa Avaliação
Foco narrativo em 1ª pessoa :white_check_mark: Correto
Identificação na flexão verbal e no sistema pronominal :white_check_mark: Correto
Ênfase na função emotiva :warning: Parcial — a emotiva está presente, mas não é a única nem necessariamente a predominante
“Recurso argumentativo” :cross_mark: Incorreto — trata-se de recurso narrativo, não argumentativo
“Confere veracidade” :cross_mark: Incorreto — a 1ª pessoa cria subjetividade e parcialidade, não veracidade

Conclusão

A afirmativa é ERRADA porque, embora identifique corretamente o foco narrativo em primeira pessoa e a presença de elementos emotivos, erra ao qualificar a perspectiva do narrador-personagem como “recurso argumentativo” e ao atribuir-lhe a capacidade de “conferir veracidade”. Na verdade, o narrador homodiegético produz efeito de subjetividade e envolvimento afetivo, mas sua visão é necessariamente parcial e limitada — o oposto de uma garantia de veracidade.


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