Questão 7 item 44 - (História do Brasil - 1a Fase - CACD 2024). O período regencial, entre 1831 e 1840, aprofundou

Enunciado:

O Brasil apresenta situações em que a aparente ruptura não interrompe a marcha da continuidade histórica. Da Independência à República, chegando à autodenominada Revolução de 1930, o país viveu sobressaltos institucionais que geralmente tangenciaram as bases estruturais do país, sem rompê-las integralmente. A conciliação quase sempre prevaleceu, mesmo em contextos de elevada tensão.

Considerando estas observações como referência inicial, julgue os itens subsequentes, relativos ao processo histórico brasileiro da Independência ao colapso do Império.

Texto do item:

O período regencial, entre 1831 e 1840, aprofundou o caráter unitário do Estado brasileiro, definido pela Constituição promulgada em 1824 — com o Ato Adicional de 1834, as províncias perderam o direito de eleger seus governantes e parlamentares — havendo consenso historiográfico de que a alteração constitucional assegurou a integridade territorial do país.

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ERRADO.

A afirmativa contém múltiplos erros históricos graves, que invertem o sentido das transformações ocorridas no período regencial. Vejamos ponto a ponto:


1. O Ato Adicional de 1834 não aprofundou o caráter unitário — ele promoveu a descentralização

A Constituição de 1824 estabeleceu um arranjo fortemente centralizado, com concentração de poder no governo central e no Rio de Janeiro.
O arranjo político-institucional centralizado e unitário definido pela Constituição, com grande concentração de poder no governo central, sofreu duras críticas das elites locais, que identificavam no Poder Moderador e na centralização político-administrativa exercida pelo Rio de Janeiro um obstáculo à autonomia das províncias.

O Ato Adicional de 1834 caminhou na direção oposta ao aprofundamento do unitarismo.
O Ato visava reformas significativas, incluindo descentralização política, que não alcançou a federação, mas foi além da simples administração.

Além de criar uma Regência Una, o Ato Adicional dissolveu o Conselho de Estado do Império, criou as Assembleias Legislativas Provinciais (concedendo mais autonomia para as províncias), estabeleceu o Município Neutro da Corte e manteve a vitaliciedade do Senado.

Portanto, o período regencial foi marcado por um movimento de descentralização, e não de aprofundamento unitário.
Durante o período regencial, houve um movimento de descentralização do poder, com a criação de assembleias provinciais e a aprovação do Ato Adicional, que concedeu mais autonomia às províncias.


2. As províncias não perderam o direito de eleger seus parlamentares — elas ganharam esse direito

Essa é a inversão mais flagrante da afirmativa. Antes do Ato Adicional, as províncias contavam apenas com os Conselhos Gerais de Província, órgãos de caráter meramente consultivo e com atribuições limitadas. O Ato Adicional substituiu esses Conselhos pelas Assembleias Legislativas Provinciais, com amplos poderes legislativos.
Foi a transformação dos conselhos gerais de províncias em assembleias legislativas provinciais a maior alteração promovida pelo Ato Adicional. As províncias passaram a contar com duas esferas distintas de decisão político-administrativa, a presidência da província, cuja nomeação cabia ao governo central, e as assembleias legislativas, cujos membros eram escolhidos em eleições censitárias. A eleição se faria nos moldes da realizada para a Assembleia Geral Legislativa, sendo a legislatura nas províncias de dois anos, prevista a reeleição.

O Ato Adicional atribuiu às assembleias legislativas autonomia de legislar sobre uma gama variada de assuntos como a divisão civil, judiciária e eclesiástica da província; a instrução pública; a desapropriação por utilidade municipal ou provincial; a criação, supressão e nomeação para os empregos municipais e provinciais.

Quanto aos presidentes de província, estes continuaram sendo nomeados pelo governo central — o que já ocorria antes do Ato Adicional.
Criavam-se assembleias legislativas nas províncias, com autonomia administrativa, embora seus presidentes permanecessem escolhidos pelo governo imperial.
Logo, as províncias não “perderam” o direito de eleger governantes — esse direito nunca existiu no que tange aos presidentes de província, e o que de fato ocorreu foi a ampliação das prerrogativas provinciais com a criação das Assembleias Legislativas eleitas.


3. Não há consenso historiográfico de que o Ato Adicional assegurou a integridade territorial

Muito pelo contrário: boa parte da historiografia aponta que a descentralização promovida pelo Ato Adicional contribuiu para a eclosão de revoltas que ameaçaram a integridade territorial.
A conturbada conjuntura política do período regencial (1831-1840), especialmente as revoltas que ocorreram em várias províncias, geraram o temor da desintegração da unidade territorial e política do Império, e serviu de mote para congregar a elite brasileira em torno de uma revisão no projeto de descentralização.

O historiador José Murilo de Carvalho sintetizou essa visão ao afirmar que a descentralização promovida pelo Ato foi seguida de “um recrudescimento das revoltas e conflitos provinciais”.
O historiador José Murilo de Carvalho comenta que o ato que reformou a Constituição de 1824, promovendo uma maior descentralização, foi seguido de “um recrudescimento das revoltas e conflitos provinciais. Nunca houve período mais conturbado na História do Brasil”.

A instabilidade política decorrente destas revoltas, associada à maior descentralização e ao crescimento do poder local, fez crescer a tese de que somente uma revisão do liberalismo e da experiência federalista iniciada pelo Ato Adicional poderia preservar o regime monárquico constitucional.

Ademais, a própria historiografia diverge sobre o significado do posterior “Regresso” conservador.
A historiografia sobre o período diverge quanto à dimensão e ao significado do Regresso no rearranjo da organização político-institucional dos governos locais, questionando se as medidas empreendidas neste contexto teriam de fato subordinado as províncias ao governo central.


Síntese

A afirmativa está triplamente errada:

Elemento da afirmativa Realidade histórica
O período regencial “aprofundou o caráter unitário” O período foi marcado pela descentralização
O Ato Adicional fez as províncias “perderem o direito de eleger governantes e parlamentares” O Ato criou as Assembleias Legislativas Provinciais eleitas; presidentes de província já eram nomeados pelo governo central antes
Há “consenso historiográfico” de que o Ato assegurou a integridade territorial A historiografia diverge, e muitos autores apontam a descentralização como fator de instabilidade e ameaça à unidade

A questão inverte deliberadamente os efeitos do Ato Adicional de 1834 para testar se o candidato conhece o sentido das reformas regenciais — um tema clássico para o CACD e para a história institucional do Brasil.


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