ERRADO
A afirmação contém um erro significativo ao fundir (confundir) dois episódios distintos da política externa do Segundo Reinado: a crise do Bill Aberdeen (relativa ao tráfico de escravos, 1845-1850) e a Questão Christie (relativa a incidentes diplomáticos, 1862-1865). A sentença os trata como se fossem uma única crise, quando na verdade são eventos separados no tempo e nas suas causas.
1. A crise do tráfico de escravos (Bill Aberdeen, 1845–1850)
O Slave Trade Suppression Act (Bill Aberdeen), promulgado em 8 de agosto de 1845, autorizava os britânicos a prender qualquer navio suspeito de transportar escravos no oceano Atlântico.
Esse ato concedia ao almirantado inglês o direito de aprisionar navios negreiros, mesmo em águas territoriais brasileiras, e de julgar seus comandantes.
A Marinha britânica invadia águas territoriais do Brasil, ameaçando inclusive bloquear os portos principais. Alguns incidentes — como a troca de tiros no Paraná entre uma embarcação inglesa e a guarnição do Forte de Paranaguá — agravaram mais ainda a situação.
Essa crise foi resolvida internamente com a aprovação da Lei Eusébio de Queirós em 1850.
Em 1850, foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós, que proibiu definitivamente o tráfico de escravos no Brasil.
Importante: esta crise não resultou em rompimento das relações diplomáticas com a Inglaterra, nem envolveu “dois incidentes policiais.”
2. A Questão Christie (1862–1865)
Os “dois incidentes” que culminaram no bloqueio e no rompimento diplomático são, na verdade, parte da Questão Christie, que não teve como causa principal o tráfico de escravos (já extinto desde 1850). Os dois incidentes foram:
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Naufrágio do Prince of Wales (1861):
Em 1861, o naufrágio de um navio inglês chamado Prince of Wales na praia de Albardão no Rio Grande do Sul, que teve sua carga saqueada e a tripulação não encontrada, foi um ponto inicial do descontentamento inglês com o Império.
Este é um incidente marítimo/criminal, e não propriamente um “incidente policial.”
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Prisão de oficiais britânicos (1862):
Em junho de 1862, três oficiais da Marinha Inglesa foram presos na Tijuca, bairro da cidade do Rio de Janeiro, quando, em estado de embriaguez, teriam, de acordo com a versão brasileira, proferido ofensas a policiais locais. A Inglaterra, no entanto, tinha uma versão diferente.
Este sim é um incidente policial.
A consequência foi o bloqueio/represália no porto do Rio de Janeiro:
Em 1862, em uma medida extrema, ele ordenou o bloqueio do porto do Rio de Janeiro e a captura de cinco navios mercantes do Brasil, gerando uma onda de indignação na população local.
E o desfecho foi o rompimento diplomático:
Esta questão diplomática foi fruto de um conjunto de incidentes envolvendo ambas as nações, culminando, pela atuação do embaixador britânico creditado no Brasil, William Dougal Christie, no rompimento das relações diplomáticas por iniciativa do Brasil em 1863.
Síntese dos erros da afirmação
| Elemento da afirmação |
Realidade histórica |
| “confronto com a marinha britânica por causa do tráfico de escravos” + “dois incidentes policiais” + “bloqueio naval” + “rompimento diplomático” (tudo junto) |
São dois episódios distintos. O confronto pelo tráfico (Bill Aberdeen) ocorreu entre 1845 e 1850 e não gerou rompimento diplomático. Os dois incidentes, o bloqueio e o rompimento vieram da Questão Christie (1862-63), que não foi motivada pelo tráfico de escravos. |
| “dois incidentes policiais” |
Apenas o segundo incidente (prisão dos oficiais) é propriamente “policial”. O primeiro (naufrágio do Prince of Wales e saque da carga) é um incidente marítimo/criminal. |
A afirmação, portanto, erra ao atribuir a causa (tráfico de escravos) da crise do Bill Aberdeen às consequências (bloqueio e rompimento diplomático) da Questão Christie, episódios separados por mais de uma década. Trata-se de uma confusão factual relevante para o CACD, onde se espera a distinção precisa entre as diferentes crises da relação anglo-brasileira no século XIX.
Referência doutrinária sugerida: CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Brasília: Editora UnB, 5ª ed., 2015 — obra fundamental para o CACD, que separa claramente as tensões do Bill Aberdeen (anos 1840-50) da Questão Christie (anos 1860).
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