ERRADO.
A afirmação contém múltiplos erros históricos graves e constitui, na verdade, uma formulação propositalmente inverossímil, típica das questões do CESPE/CACD que testam a capacidade do candidato de identificar distorções em narrativas aparentemente coerentes. Vejamos ponto a ponto:
1. Getúlio Vargas NÃO era uma liderança “nova” e “desvinculada” da experiência política anterior
Essa é talvez a distorção mais flagrante do item. Getúlio Vargas era um produto típico da política oligárquica da República Velha:
- Foi deputado estadual no Rio Grande do Sul (1909);
- Foi deputado federal (1923-1926);
- Foi Ministro da Fazenda do governo Washington Luís (1926-1927);
- Foi Presidente (governador) do estado do Rio Grande do Sul (1928-1930).
Vargas pertencia ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) e era herdeiro direto da tradição positivista castilhista-borgista gaúcha. Sua candidatura em 1930 pela Aliança Liberal decorreu justamente de uma dissidência oligárquica — quando Washington Luís rompeu a alternância entre São Paulo e Minas Gerais (a chamada “política do café com leite”) ao indicar o paulista Júlio Prestes como sucessor, em vez de um mineiro. Portanto, Vargas estava profundamente enraizado nas estruturas políticas do período anterior.
2. A Revolução de 1930 NÃO foi “imune a tentações autoritárias”
Essa parte do enunciado é absurda à luz dos fatos históricos:
- Logo após a tomada do poder, Vargas governou por decreto como chefe do Governo Provisório (1930-1934), dissolvendo o Congresso Nacional, as assembleias estaduais e as câmaras municipais, e nomeando interventores federais nos estados.
- Em 1937, Vargas deu um golpe de Estado, instaurando o Estado Novo (1937-1945), um regime ditatorial de inspiração fascista, com uma Constituição outorgada (a “Polaca”), censura à imprensa, supressão de partidos políticos, perseguição a opositores e centralização autoritária do poder.
Portanto, longe de ser “imune a tentações autoritárias”, o período pós-1930 foi marcado por um dos regimes mais autoritários da história brasileira.
3. A Revolução de 1930 NÃO foi “imune a alianças com os militares”
O movimento de 1930 foi, em grande medida, um golpe cívico-militar. A participação dos militares foi essencial:
- O tenentismo (movimento de jovens oficiais insatisfeitos com a República Velha, protagonistas das revoltas de 1922 e 1924, e da Coluna Prestes) foi uma das bases de sustentação política da Revolução de 1930.
- Líderes militares como Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra tiveram papel decisivo tanto na revolução quanto nos governos posteriores.
- A própria deposição de Washington Luís, em 24 de outubro de 1930, foi executada por uma Junta Militar (composta pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo almirante Isaías de Noronha), que entregou o poder a Vargas em 3 de novembro.
4. A noção de “ruptura total” com as estruturas da República Velha é questionável
A historiografia contemporânea (Boris Fausto, A Revolução de 1930; Edgar de Decca, 1930: O Silêncio dos Vencidos) destaca que a Revolução de 1930 não representou uma ruptura absoluta com a ordem anterior. Houve continuidades importantes:
- Muitas oligarquias regionais foram reacomodadas no novo regime, e não eliminadas;
- A estrutura fundiária permaneceu intocada;
- O próprio Vargas, como visto, era parte da elite política da República Velha.
Boris Fausto, em sua obra clássica, demonstra que 1930 foi antes uma recomposição do bloco de poder do que uma revolução social transformadora.
Conclusão
O item está ERRADO em praticamente todos os seus elementos. Getúlio Vargas não era uma liderança nova nem desvinculada da política da República Velha; o período pós-1930 foi marcado por forte autoritarismo (culminando no Estado Novo); e a aliança com os militares foi um dos pilares do movimento de 1930 e dos governos subsequentes. Trata-se de uma questão que exige do candidato o conhecimento consolidado sobre o período e a capacidade de não se deixar levar por narrativas idealizadas.
Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.