Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassoura! Vai espanadores!”. Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, e quando cheguei em 1887, a mesma língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca. Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Julgue os itens seguintes, com base no texto precedente:
Texto do item:
A expressão “a mesma boca” (quarto período) desfaz a ambiguidade quanto ao pronome átono em “Costumo ouvi-lo outras manhãs”?
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Gabarito sugerido: E
O pronome átono “-lo”, em “Costumo ouvi-lo outras manhãs”, retoma o substantivo masculino mais próximo e nuclear do sintagma anterior: “o pregão”. O sintagma “de um vendedor de vassouras e espanadores” aparece apenas como complemento especificador e não como núcleo que pudesse ser retomado pelo pronome. Quando o narrador acrescenta, adiante, “e talvez fosse a mesma boca”, ele apenas conjectura se o pregão provinha do mesmo vendedor; não há, portanto, ‘desfazimento’ de suposta ambiguidade, pois a referência de “-lo” já estava definida (o pregão) e permanece a mesma. Assim, a afirmação está errada.
Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.
Acho que a ia errou na explicação. Pode até estar errada a questão, embora eu tenha marcado como certa. Mas essa explicação não me parece fazer sentido.
Acabei errando essa questão na hora por nervosismo, mas agora, com calma, não fica tão difícil apreender que ao usar o predicativo do sujeito “a mesma boca”, Machado de Assis acaba com a ambiguidade entre o vendedor de vassouras o seu pregão, pois apenas o vendedor tem uma boca.
Vejam que “talvez fosse a mesma boca”. Então sabemos que embora o pregão é o mesmo, talvez o vendedor fosse outro.
Sendo assim, ao empregar “a mesma boca” nosso grande literato acabou com essa ambiguidade.