Questão 10 item 60 - (História do Brasil - 1a Fase - CACD 2026). Durante o Governo de Juscelino, a indústria automo

Enunciado:

Acerca dos desdobramentos internos das políticas exteriores do Brasil entre 1930 e 1964, julgue os itens seguintes.

Texto do item:

O Tropicalismo foi recebido, nos anos 60 do século passado, como síntese artística das interpretações de inspiração marxista sobre o Brasil.

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ERRADO.


Explicação didática

A afirmativa contém um erro central: o Tropicalismo (ou Tropicália) não foi recebido nos anos 1960 como uma “síntese artística das interpretações de inspiração marxista sobre o Brasil”. Na verdade, ocorreu praticamente o oposto: o movimento foi recebido, em grande medida, como uma contestação às posições da esquerda marxista que predominavam na produção cultural daquela época.

1. O que era o Tropicalismo

A Tropicália foi um movimento artístico brasileiro surgido no final dos anos 1960, caracterizado pela amalgamação de gêneros brasileiros — notadamente a união do popular com o avant-garde, bem como a fusão de tradições brasileiras com tradições e estilos estrangeiros.

O movimento propunha uma síntese entre o popular e o erudito, o nacional e o estrangeiro, o moderno e o arcaico.

2. A recepção pela esquerda marxista: contestação, não síntese

A Tropicália foi um dos movimentos artísticos mais importantes dos anos 60, tendo sido interpretada como uma contestação radical às posições da esquerda, que neste período exercia forte influência sobre a produção cultural.

A esquerda de inspiração marxista — articulada sobretudo em torno dos CPCs (Centros Populares de Cultura) da UNE e do projeto nacional-popular — propunha uma arte engajada, voltada à “conscientização das massas” e fortemente nacionalista no plano estético.
O movimento tropicalista se rebelou contra o nacional-popular, percebendo nele uma séria ameaça ao devir da cultura brasileira. Desatando-se das diretrizes culturais da esquerda, o movimento causou um mal-estar generalizado nas alas progressistas.

3. Os marxistas rejeitaram a Tropicália

O interesse apaixonado dos tropicalistas pela música psicodélica anglo-americana os colocou em conflito com estudantes de esquerda influenciados pelo marxismo, cuja agenda estética era fortemente nacionalista. Essa facção esquerdista rejeitava vigorosamente tudo — especialmente o tropicalismo — que percebiam como contaminado pelas influências corruptoras da cultura popular capitalista ocidental.

O marxista Roberto Schwarz, em seu célebre ensaio Cultura e Política, 1964-69,
atribuiu ao tropicalismo um conteúdo desmobilizador por afirmar que a realidade brasileira é “absurda”.

A esquerda, que segundo Schwarz manteve de 1964 até o AI-5 uma relativa hegemonia na cultura do Brasil, via na nova abordagem proposta por Caetano e Gil uma rendição inconsequente ao mercado e uma adesão ao projeto de modernização proposto pelos militares.

4. As verdadeiras raízes intelectuais da Tropicália

Ao invés de ser tributário do marxismo, o Tropicalismo bebia de fontes muito diversas:

  • Antropofagia modernista de Oswald de Andrade (anos 1920):
    Uma identidade que existe mais através da práxis antropofágica do que pela preservação de uma essência originária.

  • Concretismo:
    Teve grande influência do movimento concretista na literatura e nas artes plásticas.

  • Contracultura internacional e pop/rock: mesclava ritmos brasileiros com psicodelia e rock anglo-americano.

Como afirma Heloísa Buarque de Hollanda, “o problema do Tropicalismo não é então saber se a revolução brasileira deve ser socialista-proletária, nacional-popular ou burguesa. Sua descrença é exatamente em relação à ideia de poder, à noção de revolução marxista-leninista.”

5. A Tropicália criou sua própria visão do Brasil

A Tropicália compartilhava com a esquerda a ideia de que a obra de arte deveria ter como tema a realidade brasileira, mas o movimento criou sua própria versão dessa visão. A Tropicália apresentou um retrato mais complexo da realidade brasileira do que o da esquerda, apontando a existência de uma combinação de elementos “modernos” e “arcaicos” onde a esquerda só via os “arcaicos”.

Conclusão para o CACD

A afirmativa está errada porque inverte a relação real entre Tropicália e marxismo. O Tropicalismo não foi uma síntese das interpretações marxistas, e sim um movimento que rompeu com o projeto estético-político da esquerda marxista (especialmente o nacional-popular dos CPCs). Seus fundamentos intelectuais residiam na antropofagia oswaldiana, no concretismo e na contracultura internacional, propondo uma leitura do Brasil marcada pela justaposição crítica do arcaico e do moderno, do nacional e do estrangeiro — o que era visto como heresia pelos setores marxistas da época.


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