Questão 13 item 65 - (História Mundial - 1a Fase - CACD 2024). Nicolas Spykman foi o ideólogo que mais influencio

Enunciado:

Desde a Segunda Guerra Mundial, o ordenamento externo do poder norte-americano tem sido, em grande medida, mantido à parte do sistema político interno. Uma perspectiva comum e a continuidade dos objetivos separam a administração do império do governo da terra natal. Até certo ponto, o contraste entre os dois é uma função da distância geral entre o horizonte das chancelarias ou corporações e o dos cidadãos em todas as democracias capitalistas. No caso norte-americano, isso decorre também de outras duas particularidades locais: o provincianismo de um eleitorado com conhecimentos mínimos do mundo externo e um sistema político que — em contradição com os pais fundadores — tem cada vez mais dado um poder virtualmente irrestrito ao Executivo na condução dos assuntos externos.

Perry Anderson. Império. In: A política externa norte-americana e seus teóricos. São Paulo: Boitempo, 2015, p. 11 (com adaptações)

Tendo o texto precedente como referência inicial, julgue os itens a seguir, relativos à história estadunidense no século XX.

Texto do item:

Nicolas Spykman foi o ideólogo que mais influenciou a política externa norte-americana a partir da Segunda Guerra Mundial: ele defendia que a democracia era um “fetiche” e que o êxito da política externa dependia da concentração de poder nas mãos do presidente e do apoio a governos autoritários no exterior, desde que aliados.

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ERRADO.


Explicação didática

A afirmativa contém erros de atribuição que misturam as ideias e posições de diferentes teóricos da política externa norte-americana abordados por Perry Anderson em sua obra. Vejamos por quê:

1. Quem chamou a democracia de “fetiche”?

A expressão “fetiche” aplicada à democracia não é de Nicolas Spykman, mas sim de George Kennan. De acordo com a resenha da obra de Perry Anderson,
Kennan, que comandou a política de reconstrução do Japão no pós-guerra e era fã de Antonio Salazar (ditador português), achava que a democracia era um “fetiche” e que seria preciso uma “mudança constitucional para um Estado autoritário”.

2. O que Spykman de fato defendia?

Spykman era um geopolítico e geoestrategista realista, não um teórico voltado para a questão da democracia interna ou da concentração de poder presidencial. Sua contribuição principal foi a teoria do Rimland.
Ele foi um dos fundadores da escola realista clássica na política externa americana e seu trabalho em geopolítica e geoestratégia lhe rendeu o apelido de “padrinho da contenção” (godfather of containment).

Spykman de fato criticava o liberalismo democrático, mas de forma diferente.
Para Spykman, a democracia liberal havia se tornado um “mito obsoleto”: o laissez-faire levava a um crescente monopólio e à concentração do poder econômico; o livre-comércio era uma ficção ridicularizada pelos subsídios estatais.
Ou seja, ele qualificava a democracia liberal como “mito obsoleto”, não como “fetiche” — esta última expressão é de Kennan.

3. Spykman foi realmente “o ideólogo que mais influenciou” a política externa dos EUA?

Embora Spykman tenha sido extremamente influente, essa é uma afirmação contestável.
A solução geoestratégica de Spykman foi posta em prática na Guerra Fria, e segundo alguns analistas, ele exerceu mais influência na política de contenção do expansionismo soviético inaugurada na Doutrina Truman do que o próprio George Kennan, visto como pai da teoria de contenção. Contudo, há debate sobre se a práxis política americana foi mais influenciada pela análise de Kennan ou pela geopolítica de Spykman.

A questão da influência é, portanto, disputada. E, mais importante,
Spykman foi considerado o pai da “escola geopolítica norte-americana” e há semelhança entre suas propostas estratégicas e a política externa que os EUA adotaram efetivamente durante a segunda metade do século XX.
Porém, sua influência se deu no campo geopolítico-estratégico (Rimland, equilíbrio de poder, contenção), não na defesa da concentração do poder executivo ou do apoio a ditaduras aliadas como uma doutrina formulada.

4. Apoio a governos autoritários no exterior

O historiador José Luis Fiori relacionou a influência de Spykman à prática de política externa americana nas décadas posteriores da Guerra Fria, quando, ao temer a influência do “perigo comunista” em sua zona de influência, os EUA tiveram relações estreitas com a ascensão de ditaduras militares de direita no Cone Sul, e Kissinger teria seguido rigorosamente as recomendações de Spykman.
Isso, porém, é uma consequência prática da lógica geopolítica de Spykman, não uma doutrina formulada nos termos que a questão descreve (apoio explícito a governos autoritários aliados como princípio).

Conclusão

A questão está errada porque realiza uma confusão deliberada entre:

  • Spykman → teoria do Rimland, geopolítica realista, democracia liberal como “mito obsoleto”;
  • Kennan → democracia como “fetiche”, defesa de mudança constitucional rumo ao autoritarismo, apoio a regimes aliados como Salazar.

A banca testava justamente a capacidade do candidato de distinguir entre esses dois autores centrais na obra de Perry Anderson. Trata-se de uma “pegadinha” clássica do CACD, que troca atributos entre teóricos para verificar se o candidato estudou a fundo a bibliografia indicada.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.

Aqui temos uma das características mais interessantes do CACD: o diálogo entre itens de um mesmo tema entre provas de anos diferentes. Em 2026 há uma confusão entre as ideias de Spykman, defensor da ideia de Rimland e aquelas de George Kennan, o pai da teoria de contenção, cobrada no TPS 2021. Segue abaixo a afirmativa de 2021:

1. O chamado “longo telegrama” de George F. Kennan, remetido da embaixada norte-americana em Moscou ao Departamento de Estado em 1946, ajudou a fundamentar a estratégia dos Estados Unidos da América (EUA) em relação à União Soviética durante a primeira fase da Guerra Fria.