ERRADO.
Explicação didática
A afirmativa contém erros de atribuição que misturam as ideias e posições de diferentes teóricos da política externa norte-americana abordados por Perry Anderson em sua obra. Vejamos por quê:
1. Quem chamou a democracia de “fetiche”?
A expressão “fetiche” aplicada à democracia não é de Nicolas Spykman, mas sim de George Kennan. De acordo com a resenha da obra de Perry Anderson,
Kennan, que comandou a política de reconstrução do Japão no pós-guerra e era fã de Antonio Salazar (ditador português), achava que a democracia era um “fetiche” e que seria preciso uma “mudança constitucional para um Estado autoritário”.
2. O que Spykman de fato defendia?
Spykman era um geopolítico e geoestrategista realista, não um teórico voltado para a questão da democracia interna ou da concentração de poder presidencial. Sua contribuição principal foi a teoria do Rimland.
Ele foi um dos fundadores da escola realista clássica na política externa americana e seu trabalho em geopolítica e geoestratégia lhe rendeu o apelido de “padrinho da contenção” (godfather of containment).
Spykman de fato criticava o liberalismo democrático, mas de forma diferente.
Para Spykman, a democracia liberal havia se tornado um “mito obsoleto”: o laissez-faire levava a um crescente monopólio e à concentração do poder econômico; o livre-comércio era uma ficção ridicularizada pelos subsídios estatais.
Ou seja, ele qualificava a democracia liberal como “mito obsoleto”, não como “fetiche” — esta última expressão é de Kennan.
3. Spykman foi realmente “o ideólogo que mais influenciou” a política externa dos EUA?
Embora Spykman tenha sido extremamente influente, essa é uma afirmação contestável.
A solução geoestratégica de Spykman foi posta em prática na Guerra Fria, e segundo alguns analistas, ele exerceu mais influência na política de contenção do expansionismo soviético inaugurada na Doutrina Truman do que o próprio George Kennan, visto como pai da teoria de contenção. Contudo, há debate sobre se a práxis política americana foi mais influenciada pela análise de Kennan ou pela geopolítica de Spykman.
A questão da influência é, portanto, disputada. E, mais importante,
Spykman foi considerado o pai da “escola geopolítica norte-americana” e há semelhança entre suas propostas estratégicas e a política externa que os EUA adotaram efetivamente durante a segunda metade do século XX.
Porém, sua influência se deu no campo geopolítico-estratégico (Rimland, equilíbrio de poder, contenção), não na defesa da concentração do poder executivo ou do apoio a ditaduras aliadas como uma doutrina formulada.
4. Apoio a governos autoritários no exterior
O historiador José Luis Fiori relacionou a influência de Spykman à prática de política externa americana nas décadas posteriores da Guerra Fria, quando, ao temer a influência do “perigo comunista” em sua zona de influência, os EUA tiveram relações estreitas com a ascensão de ditaduras militares de direita no Cone Sul, e Kissinger teria seguido rigorosamente as recomendações de Spykman.
Isso, porém, é uma consequência prática da lógica geopolítica de Spykman, não uma doutrina formulada nos termos que a questão descreve (apoio explícito a governos autoritários aliados como princípio).
Conclusão
A questão está errada porque realiza uma confusão deliberada entre:
- Spykman → teoria do Rimland, geopolítica realista, democracia liberal como “mito obsoleto”;
- Kennan → democracia como “fetiche”, defesa de mudança constitucional rumo ao autoritarismo, apoio a regimes aliados como Salazar.
A banca testava justamente a capacidade do candidato de distinguir entre esses dois autores centrais na obra de Perry Anderson. Trata-se de uma “pegadinha” clássica do CACD, que troca atributos entre teóricos para verificar se o candidato estudou a fundo a bibliografia indicada.
Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.