CERTO.
A afirmativa está correta e reflete uma distinção historiográfica clássica entre os dois processos revolucionários do final do século XVIII. Vejamos por quê:
1. A Revolução Francesa como insígnia de ruptura
A Revolução Francesa (1789) é amplamente reconhecida na historiografia como o arquétipo da ruptura radical com o Antigo Regime (Ancien Régime). Essa ruptura se manifestou em múltiplas dimensões:
- Política: abolição da monarquia absoluta, execução de Luís XVI (1793), instauração da República e posterior reconfiguração do poder estatal.
- Social: extinção formal dos privilégios feudais e estamentais (Noite de 4 de agosto de 1789), abolição dos títulos nobiliárquicos.
- Ideológica: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) consagrou princípios universalistas de liberdade, igualdade e soberania popular, rompendo com a legitimidade dinástica e divina.
- Simbólica: a própria criação de um novo calendário republicano (1793) evidencia a intenção de fundar um “tempo zero”, uma ruptura deliberada com o passado.
Autores como François Furet (Pensando a Revolução Francesa, 1978) e Eric Hobsbawm (A Era das Revoluções, 1962) destacam esse caráter de cesura. Para Hobsbawm, a Revolução Francesa foi a revolução de seu tempo — não apenas francesa, mas ecumênica — porque forneceu o vocabulário e os modelos políticos da modernidade.
2. A Revolução Americana e a narrativa de continuidade
A Revolução Americana (1775–1783), por sua vez, é frequentemente interpretada de maneira distinta. Embora tenha sido, sim, um processo revolucionário — com independência colonial, guerra e criação de uma nova república —, sua memória e narrativa nacional foram construídas sob o signo da continuidade, e não da ruptura total. Isso se dá por vários motivos:
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Tradição constitucional inglesa: Os Founding Fathers (Pais Fundadores) — figuras como George Washington, Thomas Jefferson, James Madison, Benjamin Franklin e Alexander Hamilton — invocavam frequentemente os direitos dos ingleses (rights of Englishmen), a Magna Carta (1215), a Petition of Right (1628) e a English Bill of Rights (1689). Ou seja, a revolução era apresentada não como uma invenção radical, mas como uma restauração de liberdades que a Coroa britânica estaria violando.
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Estabilidade institucional: A Constituição de 1787, ainda vigente (com emendas), e a permanência de instituições como o common law e o federalismo revelam uma forte dimensão de continuidade institucional. Diferentemente da França, onde sucessivas constituições e regimes se sucederam (monarquia constitucional, República, Terror, Diretório, Consulado, Império…), os EUA mantiveram uma ordem constitucional estável.
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Culto aos Pais Fundadores: A memória dos Founding Fathers foi integrada ao mito fundacional da nação, funcionando como elo entre o passado colonial e o futuro republicano. Eles são venerados não como destruidores de uma ordem antiga, mas como construtores sábios de uma ordem que deveria perdurar. Essa narrativa é parte constitutiva da identidade nacional norte-americana.
3. Hannah Arendt e a distinção clássica
A filósofa Hannah Arendt, em sua obra seminal Sobre a Revolução (On Revolution, 1963), elaborou precisamente essa distinção:
- A Revolução Americana teria sido uma revolução orientada para a fundação da liberdade (foundation of freedom) — uma revolução política que buscava constituir um novo corpo político estável, preservando tradições de autogoverno.
- A Revolução Francesa, por outro lado, foi arrastada pela questão social (a miséria das massas) e transformou-se em um processo de libertação (liberation) que, na busca pela igualdade absoluta, acabou descambando para o Terror e a instabilidade.
Para Arendt, a revolução americana teve sucesso justamente porque conseguiu articular novidade e continuidade, enquanto a francesa, ao romper radicalmente com todo o passado, gerou uma dinâmica de permanente recomeço e instabilidade.
4. Conexão com o texto-base
O texto de André de Melo Araújo et al., ao discutir a periodização da Early Modern e Late Modern History, enfatiza que os marcos cronológicos da Modernidade são objeto de disputa historiográfica. A Revolução Francesa aparece no texto como um dos possíveis marcos do início do período Late Modern, justamente por seu caráter de ruptura político-intelectual. A afirmativa do item se insere coerentemente nesse debate, ao contrastar essa ruptura francesa com a lógica de continuidade presente na narrativa da Revolução Americana.
Conclusão
A afirmativa está CERTA porque:
- Caracteriza corretamente a Revolução Francesa como símbolo (insígnia) de ruptura política e ideológica com o Antigo Regime;
- Caracteriza corretamente a Revolução Americana como um processo cuja narrativa nacional incorporou a memória dos Pais Fundadores como elemento de continuidade entre o passado (tradições constitucionais inglesas) e o futuro (a República americana);
- Essa distinção é amplamente respaldada pela historiografia e pela teoria política, com destaque para a obra de Hannah Arendt (On Revolution, 1963).
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