Questão 2 item 10 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). No trecho "A carne é como a de carneiro e se fazem

Enunciado:

Carta LXV
Ao padre provincial do Brasil 1654

Com esta frota partimos pelo rio Tocantins, aproveitando-nos da maré, que só até aqui nos acompanhou, prometendo-nos muita felicidade na jornada. (…) À meia noite fizemos pabóca, que é a frase com que cá se chama a partir, corrompendo a palavra da terra, e nos dias seguintes passamos às praias da viração. Parecerá que se chamam assim por correr nelas vento fresco; mas a razão por que os portugueses lhe deram este nome é a que direi a V. Rev.ᵐᵃ. Nos meses de outubro e novembro, saem do mar e do rio do Pará grande quantidade de tartarugas, que vêm criar nos areais de algumas ilhas que pelo meio deste Tocantins estão lançadas. (…) A estas mesmas praias vem, no seu tempo, quase todo o Pará a fazer a pesca das tartarugas. (…) A carne é como a de carneiro, e se fazem dela os mesmos guisados, que mais parecem de carne que de pescado. Os ovos são como os de galinha na cor, e quase no sabor, a casca, mais branca, e de figura diferente, porque são redondos (…); e o modo como se faz esta pesca requer mais notícia que indústria, pela muita cautela e pouca resistência das tartarugas. Quando vêm a desembarcar nestas praias, trazem diante duas, como sentinelas, que vêm a espiar com muita pausa; logo depois destas, com bom espaço vêm oito ou dez, como descobridores do campo, e depois delas, em maior distância, vem todo o exército das tartarugas, que consta de muito milhares. Se as primeiras e as segundas sentem algum rumor, voltam para trás, e todas se somem num momento: por isso os que vêm à pesca se escondem todos atrás dos matos e esperam de emboscada com grande quietação e silêncio. Saem, pois, as duas primeiras espias, passeiam de alto a baixo toda a praia, e como estas acham o campo livre, saem também as da vanguarda, e fazem muito devagar a mesma vigia e, como dão a campanha por segura, entram à água e voltam, e depois dela sai toda a multidão do exército com os escudos às costas, e começam a cobrir as praias e correr em grande tropel para o mais alto delas. Aplica-se cada uma a fazer sua cova, e, quando já não saem mais e estão entretidas umas no trabalho, outras já na dor daquela ocupação, rebentam então os pescadores da emboscada, tomam a parte da praia e, remetendo as tartarugas, não fazem mais que ir virando e deixando, porque em estando viradas de costas não se podem mais bulir, e por isso estas praias e estas tartarugas se chamam de viração (…).

Antônio Vieira. Cartas. V. I. São Paulo: Globo, p. 277-279

A respeiito do texto precedente e de seus aspectos linguísitcos e literários, julgue os itens a seguir.

Texto do item:

No trecho “A carne é como a de carneiro e se fazem dela os mesmos guisados, que mais parecem de carne que de pescado”, o segmento “de carneiro” vincula-se sintaticamente ao termo elíptico “carne” como adjunto adnominal, enquanto os segmentos “de carne” e “de pescado” vinculam-se sintaticamente ao termo “guisados” como predicativos do sujeito.

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CERTO

A afirmação está correta em ambas as análises sintáticas. Vejamos cada parte detalhadamente.


1. “de carneiro” como adjunto adnominal do termo elíptico “carne”

O trecho em questão é:

“A carne é como a de carneiro”

Aqui, o pronome demonstrativo “a” substitui o substantivo “carne”, que se encontra elíptico (implícito). A estrutura plena seria: “A carne é como a [carne] de carneiro.”

O sintagma preposicional “de carneiro” restringe e especifica o substantivo elíptico “carne”, indicando a sua natureza/origem. Trata-se, portanto, de adjunto adnominal, conforme a classificação tradicional da gramática normativa (cf. Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo; Bechara, Moderna Gramática Portuguesa). O adjunto adnominal é o termo acessório que se liga a um substantivo (núcleo) para determiná-lo ou caracterizá-lo, e sintagmas preposicionados com valor restritivo/especificativo exercem essa função.

:white_check_mark: Análise correta.


2. “de carne” e “de pescado” como predicativos do sujeito

O trecho relevante é:

“os mesmos guisados, que mais parecem de carne que de pescado

Vamos à decomposição:

  • “que” → pronome relativo, sujeito da oração adjetiva, retomando o antecedente “guisados”.
  • “parecem” → verbo parecer, funcionando aqui como verbo de ligação (indica aparência/estado atribuído ao sujeito).
  • “de carne” e “de pescado” → sintagmas preposicionais que expressam a qualidade/aparência atribuída ao sujeito por meio do verbo de ligação.

Quando o verbo parecer equivale a ter a aparência de, assemelhar-se a, ele funciona como verbo de ligação, e o termo que se lhe segue, atribuindo uma qualidade ao sujeito, é predicativo do sujeito. Compare com estruturas análogas consagradas na gramática:

  • “A casa é de madeira.” → “de madeira” = predicativo do sujeito.
  • “Ele parece de confiança.” → “de confiança” = predicativo do sujeito.

Assim, em “que mais parecem de carne que de pescado”, o sentido é: os guisados parecem [ser] de carne, não de pescado — ou seja, “de carne” e “de pescado” são sintagmas preposicionais na função de predicativo do sujeito (o sujeito sendo “que” = “guisados”).

A observação de que esses termos se “vinculam sintaticamente ao termo ‘guisados’” é semanticamente precisa, uma vez que o pronome relativo “que” retoma “guisados”, e o predicativo caracteriza justamente esse referente.

:white_check_mark: Análise correta.


Síntese

Segmento Termo a que se vincula Função sintática Correto?
de carneiro “carne” (elíptico, representado por “a”) Adjunto adnominal :white_check_mark:
de carne / de pescado “guisados” (retomado por “que”) Predicativo do sujeito :white_check_mark:

A banca acerta ao identificar a elipse de “carne” e a função adnominal de “de carneiro”, bem como ao classificar “de carne” e “de pescado” como predicativos do sujeito, dada a natureza de verbo de ligação que parecer assume nesse contexto.


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