Questão 4 item 25 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). Os dois textos alcançam um efeito crítico realista

Enunciado:

“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo.” “O que é otimismo?”, dizia Cacambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal.” (…) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: “Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches”.

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, pp. 83 e 128

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso… (…) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação… Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou: — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento? — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo. E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce: — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu, mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguìsticos e literários dos fragmentos.

Texto do item:

Os dois textos alcançam um efeito crítico realista semelhante: o questionamento da realidade deformada pela lógica das classes letradas, seja a do filósofo Pangloss em sua ‘fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal’, no texto de Voltaire, seja a do juiz Veloso, para quem a perda do paraíso vale o sabor de um doce, no texto de Machado de Assis.

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ERRADO.

A seguir, explico os motivos de forma didática.


1. O paralelo estrutural entre os textos existe — mas a etiqueta “efeito crítico realista” é inadequada

A afirmativa acerta ao identificar um parentesco retórico entre os dois trechos: tanto Pangloss quanto o juiz de fora Veloso empregam uma cadeia causal que justifica sofrimentos e perdas grandiosas por meio de um prazer trivial presente (“não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches” / “não estaríamos aqui saboreando este doce”). Trata-se, nos dois casos, de uma paródia do otimismo leibniziano — a tese de que vivemos no “melhor dos mundos possíveis”.

Contudo, o mecanismo crítico mobilizado em ambos os textos não é realista, mas satírico-irônico. Esse é o cerne do erro da afirmativa.


2. Voltaire e o gênero do conte philosophique

O Cândido (1759) é um conto filosófico satírico, gênero típico do Iluminismo francês. Voltaire recorre à hipérbole, ao absurdo, à caricatura e à ironia para demolir o otimismo metafísico de Leibniz. Não há, portanto, “efeito crítico realista”; o efeito é crítico-satírico. O Realismo como escola literária só surge no século XIX, e as técnicas narrativas de Voltaire (acúmulo inverossímil de catástrofes, personagens-tipo, enredo esquemático) são o oposto do programa realista de verossimilhança e análise social minuciosa.


3. Machado de Assis: ironia e alegoria, não realismo estrito

Embora Machado de Assis seja frequentemente classificado no Realismo brasileiro, o conto “Adão e Eva” (publicado em Várias histórias, 1896) opera por meio de alegoria bíblica recontada em moldura de crônica social. O efeito crítico do conto vem da ironia machadiana: o juiz de fora, ao encerrar sua narrativa com a frase sobre o doce, esvazia qualquer pretensão metafísica com um rebaixamento cômico — procedimento mais próximo da sátira menipeia (tradição que a crítica, sobretudo após Enylton de Sá Rego e José Guilherme Merquior, associa a Machado) do que do realismo de observação social à Balzac ou Eça de Queirós.


4. A expressão “classes letradas” simplifica o alvo da crítica

A afirmativa reduz o alcance da sátira ao dizer que ambos os textos questionam “a realidade deformada pela lógica das classes letradas”. Em Voltaire, o alvo principal é a filosofia otimista de Leibniz e, por extensão, toda forma de teodiceia que justifica o mal. Em Machado, a ironia recai sobre a presunção intelectual do conviva letrado que conta uma história enigmática, mas também — e talvez sobretudo — sobre a acomodação humana ao mundo tal como é, independentemente de classe. A redução a “classes letradas” empobrece e distorce o sentido dos dois textos.


Síntese do julgamento

Elemento da afirmativa Avaliação
Paralelo Pangloss ↔ Juiz Veloso (cadeia causal + prazer trivial) :white_check_mark: Correto
“Efeito crítico realista” em ambos os textos :cross_mark: Incorreto — o efeito é satírico-irônico
“Questionamento da realidade deformada pela lógica das classes letradas :cross_mark: Simplificação redutora do alvo crítico

A afirmativa erra ao classificar como “realista” um efeito que, em ambos os textos, é produzido por sátira e ironia. Voltaire pratica o conte philosophique iluminista; Machado, a ironia de extração menipeia. Nenhum dos dois opera dentro do programa estético do Realismo literário.


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