Questão 4 item 30 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). Uma das diferenças entre o personagem Pangloss, de

Enunciado:

“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo.” “O que é otimismo?”, dizia Cacambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal.” (…) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: “Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches”.

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, pp. 83 e 128

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso… (…) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação… Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou: — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento? — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo. E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce: — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu, mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguìsticos e literários dos fragmentos.

Texto do item:

Uma das diferenças entre o personagem Pangloss, de Voltaire, e o juiz Sr. Veloso, de Machado de Assis, é o fato de que o primeiro justifica o acesso a uma iguaria por fatos que ocorreram, enquanto o segundo, por fatos que não ocorreram.

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CERTO


Explicação didática

A questão exige uma leitura comparativa atenta da estrutura argumentativa de dois personagens — Pangloss (Voltaire) e o juiz Sr. Veloso (Machado de Assis) — e do modo como cada um deles mobiliza o raciocínio contrafactual para justificar o acesso a uma iguaria.

1. O argumento de Pangloss (Voltaire)

Pangloss constrói um período condicional contrafactual (pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo + futuro do pretérito):

“se não tivésseis sido expulso… se não tivésseis sido submetido à Inquisição… se não tivésseis percorrido a América… não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches.”

A lógica é: todos esses eventos efetivamente ocorreram na trajetória de Cândido. Pangloss parte de fatos reais (a expulsão do castelo, a Inquisição, a travessia da América, o golpe de espada no barão, a perda dos carneiros) e os apresenta como elos de uma cadeia causal necessária que culmina no presente agradável — comer cidras recheadas de pistaches. Trata-se da típica argumentação leibniziana do “melhor dos mundos possíveis”, satirizada por Voltaire: tudo o que aconteceu, por pior que fosse, era necessário para o bem final.

2. O argumento do juiz Sr. Veloso (Machado de Assis)

O juiz de fora, após narrar uma versão heterodoxa do mito de Adão e Eva (em que eles não cedem à tentação da serpente e vão diretamente ao céu), reconhece:

“Pensando bem, creio que nada disso aconteceu, mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce…”

Aqui a estrutura contrafactual é inversa: o juiz parte de fatos que não ocorreram (a versão alternativa da criação, em que Adão e Eva não pecaram). Ele argumenta que, se aquela narrativa tivesse acontecido (ou seja, se o pecado original não tivesse ocorrido e a humanidade não existisse tal como é), eles não estariam ali degustando o doce. Portanto, a justificativa para o gozo presente repousa sobre eventos fictícios/não ocorridos.

3. A diferença central

Pangloss Juiz Veloso
Fatos invocados Reais (aconteceram) Fictícios (não aconteceram)
Estrutura lógica “Se X (que aconteceu) não tivesse acontecido → não teríamos a iguaria” “Se Y (que não aconteceu) tivesse acontecido → não teríamos a iguaria”
Iguaria Cidras recheadas de pistaches Doce primoroso

Ambos os personagens utilizam o período hipotético de irrealidade (condição contrária ao fato), mas com vetores opostos:

  • Pangloss nega contrafactualmente o que de fato ocorreu para mostrar que a cadeia real de eventos levou ao bem presente.
  • Veloso afirma contrafactualmente o que de fato não ocorreu para mostrar que, se tivesse ocorrido, o bem presente não existiria.

4. Observação literária complementar

Machado de Assis, reconhecido leitor de Voltaire, realiza aqui uma inversão irônica do procedimento panglossiano. O juiz Veloso reproduz, com sinal trocado, a mesma lógica do “tudo está bem” — um fino exercício de intertextualidade que a banca explora ao pedir a leitura comparada dos dois textos. Enquanto Voltaire satiriza o otimismo filosófico, Machado o reelabora com humor machadiano, fazendo o personagem justificar o prazer presente por meio de algo que sequer existiu.


Gabarito: CERTO. A afirmativa descreve corretamente a diferença: Pangloss se apoia em fatos ocorridos; o juiz Veloso, em fatos não ocorridos.


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