Questão 4 item 27 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). A narrativa de Voltaire é fabulosa, pois relata ac

Enunciado:

“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo.” “O que é otimismo?”, dizia Cacambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal.” (…) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: “Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches”.

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, pp. 83 e 128

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso… (…) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação… Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou: — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento? — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo. E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce: — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu, mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguìsticos e literários dos fragmentos.

Texto do item:

A narrativa de Voltaire é fabulosa, pois relata acontecimentos ocorridos em ‘um lindo castelo’ e no ‘bom país de Eldorado’; já a de Machado é realista, pois os fatos relatados efetivamente ocorreram.

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ERRADO.


Explicação didática

A afirmativa comete equívocos graves na classificação de ambas as narrativas. Vejamos ponto a ponto:

1. Sobre a narrativa de Voltaire

É verdade que Cândido, ou o Otimismo contém elementos fabulosos — como o mítico Eldorado e os cenários fantásticos. Contudo, reduzir a classificação da obra a “fabulosa” apenas pela presença de castelos e do Eldorado é superficial e insuficiente. A obra é, antes de tudo, um conto filosófico satírico (conte philosophique), gênero em que os elementos fantásticos e inverossímeis servem de veículo para a crítica filosófica — no caso, ao otimismo leibniziano de que vivemos “no melhor dos mundos possíveis”. Os cenários não são o que define o gênero; são instrumentais à sátira. Portanto, embora haja alguma parcela de verdade nesse ponto, a justificativa dada é rasa.

2. Sobre a narrativa de Machado — o erro central

Aqui reside o erro mais grave da afirmativa. O conto Adão e Eva, de Machado de Assis, não é uma narrativa realista no sentido de que os fatos efetivamente ocorreram. Muito pelo contrário:

  • O texto apresenta uma narrativa encaixada (mise en abyme): o juiz de fora narra, dentro de uma cena social (o jantar), uma versão alternativa e heterodoxa da história bíblica de Adão e Eva — na qual Eva resiste à tentação da serpente.
  • Os próprios personagens-ouvintes reconhecem que a história é enigmática e inverossímil: D. Leonor diz que o juiz estava “logrando a gente” e chama a narrativa de “enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente.”
  • O próprio juiz de fora admite ao final: “creio que nada disso aconteceu”, o que desmente frontalmente a ideia de que os fatos “efetivamente ocorreram.”

Portanto, a narrativa machadiana é, nesse conto, uma fabulação alegórica e irônica, e não um relato realista de fatos ocorridos. Machado, embora seja frequentemente associado ao Realismo brasileiro, não se limita a ele — e neste conto específico, utiliza uma parábola bíblica reinventada como recurso para a reflexão filosófica e a ironia, num procedimento que dialoga justamente com o conto filosófico de Voltaire.

3. A relação entre os dois textos

Na verdade, o ponto de convergência entre as duas obras é que ambas são fabulações filosóficas:

Aspecto Voltaire (Cândido) Machado (Adão e Eva)
Gênero Conto filosófico/satírico Conto alegórico/irônico
Elementos fabulosos Eldorado, aventuras inverossímeis Releitura do Gênesis bíblico
Recurso central Sátira ao otimismo leibniziano Ironia e parábola sobre a condição humana
Os fatos “ocorreram”? Ficção filosófica O próprio texto nega: “nada disso aconteceu”

Conclusão

A afirmativa é ERRADA porque (a) simplifica indevidamente a natureza da narrativa de Voltaire e (b) classifica erroneamente como “realista” uma narrativa de Machado que é explicitamente alegórica, inverossímil e reconhecida como tal dentro do próprio texto.


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