ERRADO.
Explicação Didática
A afirmação comete um erro conceitual grave ao dizer que a autoridade monetária não pode utilizar a taxa de juros para defender a paridade cambial em regime de câmbio fixo. Na verdade, ocorre exatamente o oposto: a taxa de juros é um dos principais — senão o principal — instrumentos de defesa da paridade cambial fixa.
1. O Modelo Mundell-Fleming e o Regime de Câmbio Fixo
No arcabouço do modelo Mundell-Fleming (referência central na bibliografia do CACD, presente em Krugman, Obstfeld & Melitz e em Blanchard), sob câmbio fixo e mobilidade de capitais, a política monetária torna-se endógena à defesa da paridade. Isso significa que:
- Se há uma pressão de depreciação (fuga de capitais, aumento do prêmio de risco, choque de confiança negativo), o Banco Central eleva a taxa de juros para tornar os ativos domésticos mais atrativos, atrair capitais e sustentar a paridade.
- Se há pressão de apreciação (entrada excessiva de capitais), o Banco Central pode reduzir juros para desestimular a entrada.
Portanto, a taxa de juros pode e é utilizada como instrumento de defesa da paridade. O que o modelo Mundell-Fleming nos ensina é que, ao fazê-lo, o Banco Central perde a autonomia de usar a política monetária para objetivos domésticos (como controle de inflação ou estímulo ao produto).
2. A Trindade Impossível (Trilema de Mundell-Fleming)
O trilema da política econômica estabelece que um país não pode ter, simultaneamente:
- Câmbio fixo;
- Livre mobilidade de capitais;
- Política monetária autônoma (voltada a objetivos internos).
Ao escolher câmbio fixo com mobilidade de capitais, o país abre mão da autonomia monetária — ou seja, a taxa de juros passa a ser determinada pela necessidade de manter a paridade, e não por objetivos domésticos. Isso é muito diferente de dizer que o Banco Central “não pode usar juros para defender a paridade”. A rigor, ele é obrigado a usá-los para esse fim.
3. Exemplos Históricos
- Brasil (1995–1999): No regime de bandas cambiais (uma variante do câmbio fixo), o Banco Central do Brasil elevou drasticamente a taxa Selic em momentos de crise (Crise Asiática de 1997, Crise Russa de 1998) exatamente para defender a paridade do Real, chegando a juros reais extremamente elevados.
- Reino Unido (1992): O Bank of England elevou a taxa de juros de 10% para 15% em um único dia na tentativa de defender a libra esterlina dentro do Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio (ERM) — episódio conhecido como a “Quarta-feira Negra”.
Esses exemplos ilustram que, na prática, a elevação de juros é o mecanismo clássico de defesa da paridade.
4. O Erro da Afirmação
A afirmação confunde duas ideias:
| O que a teoria diz |
O que a afirmação diz |
| Em câmbio fixo com mobilidade de capitais, o BC perde a autonomia de usar juros para fins domésticos. |
O BC não pode usar juros para defender a paridade. |
São proposições diametralmente opostas. A perda de autonomia monetária significa justamente que o juros é capturado pela defesa do câmbio, ou seja, ele é usado para esse fim — e somente para esse fim (em caso extremo de mobilidade perfeita).
Referências Doutrinárias Recomendadas
- KRUGMAN, P.; OBSTFELD, M.; MELITZ, M. Economia Internacional — Capítulos sobre o modelo Mundell-Fleming e regimes cambiais.
- BLANCHARD, O. Macroeconomia — Capítulos sobre economia aberta.
- MANKIW, N. G. Macroeconomia — Seção sobre o trilema da política econômica.
- DORNBUSCH, R.; FISCHER, S.; STARTZ, R. Macroeconomia — Análise de câmbio fixo e política monetária.
Conclusão
A afirmação é ERRADA. Em regime de câmbio fixo, a autoridade monetária não apenas pode, como frequentemente deve utilizar a taxa de juros como instrumento primário de defesa da paridade cambial. O que ela não pode fazer é utilizá-la livremente para fins de política doméstica (estabilização do produto, controle autônomo de inflação), já que essa variável fica subordinada à manutenção do câmbio.
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