Questão 47 item 205 - (Economia - 1a Fase - CACD 2026). Um aumento persistente do diferencial de juros ten

Enunciado:

Em economias abertas, choques de confiança e alterações no prêmio de risco podem afetar fluxos de capitais e pressionar a o uso de juros. A resposta de política econômica — incluindo-se fatores, o regime cambial vigente e das restrições impostas pelo grau de mobilidade de capitais. Ademais, distinções conceituais entre taxa de câmbio nominal e taxa de câmbio real são relevantes para analisar preços relativos e competitividade, assim como para discutir mecanismos de transmissão do câmbio para a inflação. Acerca de macroeconomia aberta, regime cambial e determinação da taxa de câmbio, julgue os itens subsequentes.

Texto do item:

Um aumento persistente do diferencial de juros tende a desvalorizar o câmbio e, por essa via, elevar a inflação doméstica; ademais, as exportações líquidas e importações tendem a atenuar esse aumento do nível de preços.

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ERRADO.

A afirmativa contém dois erros encadeados que comprometem toda a lógica da proposição. Vamos desconstruí-la passo a passo.


1. Primeiro erro: o efeito do diferencial de juros sobre o câmbio

A afirmativa diz:

“Um aumento persistente do diferencial de juros tende a desvalorizar o câmbio”

Isso é o oposto do que prevê a teoria macroeconômica padrão.

O que diz a teoria?

No modelo Mundell-Fleming com mobilidade de capitais e no arcabouço da Paridade Descoberta da Taxa de Juros (UIP — Uncovered Interest Parity), um aumento do diferencial de juros domésticos em relação aos juros externos (i − i* > 0) atrai fluxos de capitais para o país, aumentando a oferta de divisas no mercado cambial. Isso gera uma apreciação (valorização) da moeda doméstica, e não uma desvalorização.

A intuição é direta:

  • Juros domésticos mais altos → ativos domésticos mais atraentes → entrada de capitais → maior oferta de moeda estrangeira → câmbio se aprecia (a moeda nacional se fortalece).

Na condição de UIP, se i > i^*, espera-se uma depreciação futura da moeda doméstica para equalizar os retornos esperados. Mas o efeito imediato (e persistente, enquanto o diferencial se mantiver) é de apreciação — o chamado overshooting cambial descrito por Dornbusch (1976) mostra justamente que a moeda se aprecia além do equilíbrio de longo prazo no curto prazo quando os juros sobem.

Regra mnemônica para o CACD: Juros domésticos sobem → capital entra → câmbio aprecia (fortalece a moeda local).


2. Segundo erro (consequência do primeiro): o efeito sobre a inflação

A afirmativa diz que a suposta desvalorização elevaria a inflação e que as exportações líquidas e importações “atenuariam” esse aumento de preços. Aqui há uma confusão conceitual dupla:

O que realmente ocorre com a apreciação cambial?

Quando o câmbio se aprecia (moeda nacional mais forte):

  • Importações ficam mais baratas em moeda local → efeito deflacionário direto (pass-through cambial para os preços domésticos);
  • Exportações perdem competitividade → as exportações líquidas (NX = X − M) tendem a diminuir;
  • A redução das exportações líquidas diminui a demanda agregada, exercendo pressão desinflacionária adicional.

Portanto, o canal correto é:

\uparrow (i - i^*) \;\longrightarrow\; \text{apreciação cambial} \;\longrightarrow\; \downarrow \text{preços de importados} \;\longrightarrow\; \downarrow \text{inflação}

Esse é, inclusive, um dos canais de transmissão da política monetária reconhecidos pelo Banco Central do Brasil: a elevação da Selic amplia o diferencial de juros, aprecia o câmbio e contribui para conter a inflação via barateamento das importações e contenção da demanda agregada.

E se houvesse desvalorização (como diz a questão)?

Caso ocorresse uma desvalorização, o efeito sobre exportações e importações seria:

  • Exportações aumentariam (mais competitivas);
  • Importações ficariam mais caras → efeito inflacionário (não atenuador).

Ou seja, mesmo na lógica interna da questão, dizer que exportações líquidas e importações “atenuam” o aumento de preços causado por uma desvalorização é incoerente: a desvalorização encarece as importações, o que reforça (e não atenua) a pressão inflacionária.


Resumo dos erros

Elemento da afirmativa O que diz O que é correto
Efeito do ↑ diferencial de juros sobre o câmbio Desvalorização Apreciação (valorização)
Efeito sobre a inflação Elevação Redução (efeito desinflacionário)
Papel das exportações líquidas/importações Atenuam a alta de preços Com apreciação, reforçam a queda de preços; com desvalorização, agravam a alta

Referências doutrinárias

  • Modelo Mundell-Fleming (Mundell, 1963; Fleming, 1962): efeito de juros sobre fluxos de capitais e câmbio em economia aberta.
  • Overshooting cambial de Dornbusch (1976): explicação da sobreapreciação inicial da moeda diante de choques monetários.
  • Paridade Descoberta de Juros (UIP): relação entre diferencial de juros e expectativa de variação cambial.
  • Blanchard, O. — Macroeconomia, caps. sobre economia aberta.
  • Krugman, Obstfeld & Melitz — Economia Internacional, caps. sobre determinação da taxa de câmbio e política monetária em economia aberta.

Gabarito: ERRADO. A questão inverte a relação fundamental entre diferencial de juros e câmbio e, em consequência, erra toda a cadeia de transmissão para a inflação.


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