ERRADO.
A afirmativa contém dois erros encadeados que comprometem toda a lógica da proposição. Vamos desconstruí-la passo a passo.
1. Primeiro erro: o efeito do diferencial de juros sobre o câmbio
A afirmativa diz:
“Um aumento persistente do diferencial de juros tende a desvalorizar o câmbio”
Isso é o oposto do que prevê a teoria macroeconômica padrão.
O que diz a teoria?
No modelo Mundell-Fleming com mobilidade de capitais e no arcabouço da Paridade Descoberta da Taxa de Juros (UIP — Uncovered Interest Parity), um aumento do diferencial de juros domésticos em relação aos juros externos (i − i* > 0) atrai fluxos de capitais para o país, aumentando a oferta de divisas no mercado cambial. Isso gera uma apreciação (valorização) da moeda doméstica, e não uma desvalorização.
A intuição é direta:
- Juros domésticos mais altos → ativos domésticos mais atraentes → entrada de capitais → maior oferta de moeda estrangeira → câmbio se aprecia (a moeda nacional se fortalece).
Na condição de UIP, se i > i^*, espera-se uma depreciação futura da moeda doméstica para equalizar os retornos esperados. Mas o efeito imediato (e persistente, enquanto o diferencial se mantiver) é de apreciação — o chamado overshooting cambial descrito por Dornbusch (1976) mostra justamente que a moeda se aprecia além do equilíbrio de longo prazo no curto prazo quando os juros sobem.
Regra mnemônica para o CACD: Juros domésticos sobem → capital entra → câmbio aprecia (fortalece a moeda local).
2. Segundo erro (consequência do primeiro): o efeito sobre a inflação
A afirmativa diz que a suposta desvalorização elevaria a inflação e que as exportações líquidas e importações “atenuariam” esse aumento de preços. Aqui há uma confusão conceitual dupla:
O que realmente ocorre com a apreciação cambial?
Quando o câmbio se aprecia (moeda nacional mais forte):
- Importações ficam mais baratas em moeda local → efeito deflacionário direto (pass-through cambial para os preços domésticos);
- Exportações perdem competitividade → as exportações líquidas (NX = X − M) tendem a diminuir;
- A redução das exportações líquidas diminui a demanda agregada, exercendo pressão desinflacionária adicional.
Portanto, o canal correto é:
\uparrow (i - i^*) \;\longrightarrow\; \text{apreciação cambial} \;\longrightarrow\; \downarrow \text{preços de importados} \;\longrightarrow\; \downarrow \text{inflação}
Esse é, inclusive, um dos canais de transmissão da política monetária reconhecidos pelo Banco Central do Brasil: a elevação da Selic amplia o diferencial de juros, aprecia o câmbio e contribui para conter a inflação via barateamento das importações e contenção da demanda agregada.
E se houvesse desvalorização (como diz a questão)?
Caso ocorresse uma desvalorização, o efeito sobre exportações e importações seria:
- Exportações aumentariam (mais competitivas);
- Importações ficariam mais caras → efeito inflacionário (não atenuador).
Ou seja, mesmo na lógica interna da questão, dizer que exportações líquidas e importações “atenuam” o aumento de preços causado por uma desvalorização é incoerente: a desvalorização encarece as importações, o que reforça (e não atenua) a pressão inflacionária.
Resumo dos erros
| Elemento da afirmativa |
O que diz |
O que é correto |
| Efeito do ↑ diferencial de juros sobre o câmbio |
Desvalorização |
Apreciação (valorização) |
| Efeito sobre a inflação |
Elevação |
Redução (efeito desinflacionário) |
| Papel das exportações líquidas/importações |
Atenuam a alta de preços |
Com apreciação, reforçam a queda de preços; com desvalorização, agravam a alta |
Referências doutrinárias
- Modelo Mundell-Fleming (Mundell, 1963; Fleming, 1962): efeito de juros sobre fluxos de capitais e câmbio em economia aberta.
- Overshooting cambial de Dornbusch (1976): explicação da sobreapreciação inicial da moeda diante de choques monetários.
- Paridade Descoberta de Juros (UIP): relação entre diferencial de juros e expectativa de variação cambial.
- Blanchard, O. — Macroeconomia, caps. sobre economia aberta.
- Krugman, Obstfeld & Melitz — Economia Internacional, caps. sobre determinação da taxa de câmbio e política monetária em economia aberta.
Gabarito: ERRADO. A questão inverte a relação fundamental entre diferencial de juros e câmbio e, em consequência, erra toda a cadeia de transmissão para a inflação.
Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.