ERRADO.
Análise Detalhada
A afirmativa comete um erro lógico e conceitual ao estabelecer uma relação de necessidade causal (“implica, necessariamente”) entre a expansão dos meios de pagamento digitais e a redução do papel dos bancos na intermediação de crédito. Essa relação não é automática nem inevitável, por diversas razões que passo a expor.
1. Distinção funcional: pagamentos ≠ intermediação de crédito
É fundamental distinguir duas funções clássicas do sistema financeiro:
- Função de pagamentos: viabilizar a transferência de recursos entre agentes econômicos.
- Função de intermediação financeira (crédito): captar recursos de agentes superavitários (poupadores/depositantes) e canalizá-los a agentes deficitários (tomadores de crédito), realizando a transformação de maturidades, riscos e volumes.
A expansão dos meios de pagamento digitais — como carteiras eletrônicas, plataformas de pagamento instantâneo (e.g., Pix no Brasil) e aplicativos de transferência — atua primordialmente na primeira função. Ela altera a forma como os recursos circulam, mas não desloca automaticamente a capacidade dos bancos de intermediar crédito.
2. Bancos como protagonistas da própria digitalização
Os próprios bancos tradicionais são agentes centrais da digitalização. No Brasil, os grandes bancos investiram fortemente em plataformas digitais, internet banking e aplicativos móveis. Quando um cliente utiliza o Pix por meio do aplicativo de um banco comercial, a operação digital ocorre dentro da infraestrutura bancária, e os depósitos permanecem no sistema bancário, alimentando a base de funding para operações de crédito.
Ou seja, a digitalização dos pagamentos pode até reforçar a posição dos bancos, ao reduzir seus custos operacionais (menos agências físicas, menos papel) e ampliar sua base de clientes.
3. Inclusão financeira pode ampliar a intermediação
A literatura econômica reconhece que a digitalização dos pagamentos pode expandir o acesso financeiro (financial inclusion), trazendo para o sistema formal indivíduos anteriormente desbancarizados. Esse fenômeno pode aumentar os depósitos no sistema bancário e, consequentemente, expandir — e não reduzir — a capacidade de intermediação de crédito.
4. Fintechs de crédito: complemento, não substituição necessária
É verdade que fintechs de crédito (no Brasil, as Sociedades de Crédito Direto – SCDs e as Sociedades de Empréstimo entre Pessoas – SEPs, reguladas pela Resolução CMN nº 4.656/2018) passaram a atuar em nichos de concessão de crédito. Contudo:
- Sua participação no estoque total de crédito da economia ainda é marginal se comparada à dos bancos comerciais;
- Muitas fintechs operam em parceria com bancos (modelo Banking as a Service), o que mantém os bancos no centro da cadeia de intermediação;
- A regulação prudencial e os requisitos de capital continuam conferindo vantagens competitivas estruturais aos bancos na intermediação de crédito em larga escala.
5. O debate sobre CBDCs e desintermediação
Mesmo no âmbito mais avançado da discussão — as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) —, a possível desintermediação bancária é tratada como um risco potencial a ser mitigado pelo desenho institucional, e não como consequência inevitável. O BIS (Bank for International Settlements) e diversos bancos centrais (inclusive o BCB, com o projeto Drex) adotam modelos de CBDC em duas camadas (two-tier model), justamente para preservar o papel dos bancos na intermediação.
6. O erro do determinismo: a palavra “necessariamente”
Em termos de técnica de prova (especialmente no padrão CESPE/Cebraspe), o uso de termos absolutos como “necessariamente”, “sempre”, “jamais” é um forte indicador de assertiva incorreta, pois ignora a complexidade dos fenômenos econômicos. A relação entre digitalização de pagamentos e intermediação bancária é contingente, dependendo de:
- Marco regulatório vigente;
- Estratégia de adaptação dos bancos;
- Desenho institucional das inovações (CBDCs, open banking, etc.);
- Estrutura de mercado e grau de concorrência.
Conclusão
A expansão dos meios de pagamento digitais pode, em determinadas configurações institucionais e de mercado, pressionar o papel tradicional dos bancos na intermediação de crédito — mas não implica necessariamente essa redução. Os bancos podem (e frequentemente conseguem) adaptar-se, incorporar a inovação digital e preservar sua função central de intermediação. A assertiva peca pelo determinismo absoluto e pela confusão entre função de pagamentos e função de intermediação de crédito.
Gabarito: ERRADO 
Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.