CERTO
Explicação Didática
A afirmativa está correta e trata de um dos temas mais centrais e consolidados na literatura econômica contemporânea sobre moedas digitais de banco central (CBDCs): o risco de desintermediação bancária (bank disintermediation) e seus desdobramentos sobre a política monetária e a estabilidade financeira.
1. O Mecanismo Central: Manutenção de Ativos Diretamente no Banco Central
Hoje, o público em geral não mantém depósitos diretamente no banco central — apenas instituições financeiras têm acesso a contas de reservas no BC. A moeda emitida pelo banco central acessível ao público se restringe ao papel-moeda (cédulas e moedas metálicas). Com a introdução de uma CBDC de varejo (retail CBDC), os agentes econômicos passariam a deter um ativo digital que é passivo direto do banco central, o que cria uma alternativa aos depósitos bancários tradicionais.
2. Impacto sobre a Estrutura de Captação Bancária
Se famílias e empresas optarem por converter parte de seus depósitos bancários em CBDC, isso reduz a base de depósitos dos bancos comerciais.
Há o risco de que fundos migrem dos depósitos bancários para a CBDC, gerando desintermediação bancária.
Estudos que examinam as implicações de uma CBDC para bancos cujos modelos de negócio são particularmente dependentes de depósitos mostram que, mesmo com taxas de conversão moderadas, a maioria dos bancos teria enfrentado problemas de financiamento e perda de lucratividade.
Essa perda de depósitos altera a estrutura de captação (funding) dos bancos, forçando-os a buscar fontes alternativas de financiamento, como o mercado interbancário ou wholesale funding, que tende a ser mais caro e volátil.
Pesquisas indicam que grandes bancos estão mais bem equipados para se adaptar a um sistema financeiro com CBDC, por terem acesso superior a financiamento de atacado, enquanto o impacto negativo sobre empréstimos em bancos pequenos pode ser até três vezes maior.
3. Efeitos sobre a Transmissão da Política Monetária
A política monetária é transmitida em grande parte pelo canal do crédito bancário e pelo canal das taxas de juros. Se a CBDC altera a base de depósitos e os custos de captação dos bancos, isso inevitavelmente modifica a forma como variações na taxa de política se propagam pela economia.
Uma CBDC remunerada, mais próxima da taxa de política, seria substituta mais direta dos depósitos, e o maior grau de desintermediação resultante poderia forçar os bancos a reagir com mais intensidade a mudanças na taxa básica — alterando taxas de depósitos, taxas de empréstimos e a oferta de crédito.
Uma CBDC pode afetar a transmissão da política monetária mesmo sem ser remunerada, já que alteraria o ambiente econômico geral.
4. Riscos à Estabilidade Financeira
Um aspecto particularmente preocupante é o risco de corridas bancárias digitais (digital bank runs).
A capacidade dos depositantes de migrar rapidamente de bancos tradicionais para a CBDC em momentos de estresse sublinha a preocupação com a possível desestabilização do sistema.
Pesquisa do BIS mostra que a CBDC pode ter impacto negativo sobre a estabilidade financeira ao aumentar a probabilidade de corridas bancárias — potencializando a “desintermediação rápida”.
5. Mecanismos de Mitigação e o Caso Brasileiro (Drex)
Diversos desenhos institucionais são discutidos para mitigar esses riscos: limites quantitativos sobre saldos em CBDC, remuneração escalonada (tiered remuneration) e não remuneração.
A maioria dos bancos centrais está considerando remuneração zero para CBDC de varejo, a fim de incentivar seu uso principal como instrumento de pagamento e mitigar a desintermediação bancária.
No caso brasileiro, o Drex (a CBDC brasileira) foi desenhado justamente com a preocupação de preservar o papel dos intermediários financeiros.
O Banco Central manterá a parceria com o setor privado no fornecimento de liquidez ao mercado, por meio da coexistência do Drex com moedas digitais privadas emitidas por instituições reguladas.
Para ter acesso à plataforma Drex, o cidadão precisará de um intermediário financeiro autorizado, como um banco, que fará a transferência do dinheiro depositado em conta para a carteira digital.
6. Referências Doutrinárias
A preocupação com a desintermediação é amplamente documentada:
- Federal Reserve (Infante et al., 2022/2023): revisão abrangente dos riscos macroeconômicos de CBDCs, incluindo desintermediação e instabilidade.
- FMI (2023/2024): notas técnicas sobre implicações de CBDCs para a transmissão da política monetária e a estabilidade financeira.
- BIS (2024): análise da desintermediação “lenta” (em tempos normais) e “rápida” (em momentos de estresse/corrida bancária).
O FMI oferece avaliação das implicações de estabilidade financeira da emissão de CBDCs de varejo, concluindo que os efeitos dependem do tamanho da emissão, das condições iniciais e das reações do setor bancário e do banco central.
Conclusão
A afirmativa reproduz, com precisão técnica, uma das preocupações mais consolidadas da literatura sobre CBDCs. A possibilidade de agentes manterem ativos diretamente junto ao banco central, via CBDC, pode (i) reduzir a base de depósitos bancários, (ii) alterar a estrutura de captação das instituições financeiras, (iii) modificar os canais de transmissão da política monetária e (iv) criar riscos à estabilidade financeira, especialmente em cenários de estresse. Portanto, o item está CERTO.
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