Questão 14 item 81 - (História Mundial - 1a Fase - CACD 2026). As teorias desenvolvimentistas do século XX foram

Enunciado:

No mundo acadêmico de língua inglesa, os debates em torno do conceito de Early Modern History passaram a ser mais consensuais alguns anos à frente, prova de que a periodização não é apenas uma questão central, mas também mais sensível da historiografia. Até hoje, não se estabeleceu um consenso absoluto no que diz respeito aos marcos cronológicos dessa época. De modo análogo, o início do período designado como Late Modern, ou simplesmente Modern, costuma ser marcado em mais de um momento: meados do século XVIII, com o Iluminismo ou, mais tardiamente, com os acontecimentos e consequências da Revolução Francesa, entendidos em geral como o pilar político e intelectual da Modernidade; na virada do século XVIII para o século XIX, ainda com a primeira Revolução Industrial e o começo da guinada hegemônica do capitalismo, focando, assim, nas transformações socioeconômicas; ou somente após as primeiras décadas do século XIX, quando já se anunciavam as feições políticas dos Estados-nação e as garras do imperialismo, ou quando os resquícios do regime feudal desapareciam de fato.
Como se pode ver, a variedade de termos e balizas cronológicas na criação de um período é resultado de uma operação historiográfica que convida historiadores e historiadoras, leitores e leitoras a investigar o vigor ou a tibieza do passado histórico na definição do tempo presente.

André de Melo Araújo et al (org.). A Época Moderna. Uma introdução. In: A Época Moderna. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024, p. 13 (com adaptações)

Julgue os itens a seguir, a partir do texto precedente.

Texto do item:

As teorias desenvolvimentistas do século XX foram inspiradas pela tradição liberal e baseavam-se em uma ideia de crescimento econômico infinito, que, embora reforçada pelo contínuo e crescente processo de industrialização, foi colocada em xeque pelo colapso ambiental iminente no capitalismo tardio.

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ERRADO


Análise da Afirmativa

A assertiva contém generalizações imprecisas e simplificações que comprometem sua correção, tanto do ponto de vista do conteúdo substantivo quanto da relação com o texto-base.


1. “As teorias desenvolvimentistas do século XX foram inspiradas pela tradição liberal”

Este é o erro central e mais grave da afirmativa. As teorias desenvolvimentistas do século XX não foram uniformemente inspiradas pela tradição liberal. Trata-se de um campo teórico plural e, em muitos casos, antagônico ao liberalismo clássico:

  • Teoria da Modernização (Rostow, 1960): Esta sim pode ser associada à tradição liberal, ao propor estágios lineares de crescimento e tomar o modelo ocidental-capitalista como parâmetro universal de desenvolvimento.

  • Estruturalismo cepalino (Prebisch, Furtado, Singer): Inspirado em uma leitura heterodoxa da economia, criticava as relações centro-periferia e a deterioração dos termos de troca. Propunha a industrialização por substituição de importações (ISI) e a intervenção estatal — medidas frequentemente contrárias à ortodoxia liberal.

  • Teoria da Dependência (A.G. Frank, Cardoso & Faletto, Ruy Mauro Marini, Samir Amin): Em suas várias vertentes (marxista e weberiana), rejeitava explicitamente a tradição liberal e apontava o subdesenvolvimento como produto da inserção periférica no sistema capitalista mundial, não como uma etapa a ser superada.

  • Abordagens neomarxistas e do sistema-mundo (Wallerstein): Igualmente críticas à lógica liberal.

Portanto, afirmar que “as teorias desenvolvimentistas” — com o artigo definido e sem qualquer ressalva — foram inspiradas pela tradição liberal é uma generalização incorreta. Apenas parte dessas teorias (notadamente a modernização rostowiana) pode ser vinculada ao liberalismo.


2. “Baseavam-se em uma ideia de crescimento econômico infinito”

Embora a crítica ao paradigma de crescimento ilimitado seja legítima e tenha ganhado força especialmente a partir do Relatório do Clube de Roma (The Limits to Growth, 1972), é impreciso atribuir essa premissa a todas as teorias desenvolvimentistas. Autores como Celso Furtado, por exemplo, já na década de 1970, questionavam o mimetismo dos padrões de consumo dos países centrais e alertavam para a insustentabilidade ecológica e social desse modelo (veja-se O Mito do Desenvolvimento Econômico, 1974).


3. “Colapso ambiental iminente no capitalismo tardio”

A expressão “colapso ambiental iminente” é uma formulação mais associada ao debate contemporâneo (especialmente pós-Antropoceno e mudanças climáticas) do que propriamente ao período em que as teorias desenvolvimentistas foram formuladas. O conceito de capitalismo tardio (Spätkapitalismus), teorizado por Ernest Mandel (1972) e posteriormente reelaborado culturalmente por Fredric Jameson, não tem como eixo central a questão ambiental, mas sim as transformações na lógica de acumulação, na financeirização e na cultura pós-moderna.


4. Relação com o texto-base

O texto de André de Melo Araújo et al. trata da periodização historiográfica — os debates em torno dos conceitos de Early Modern e Late Modern, os diferentes marcos cronológicos e a operação historiográfica envolvida na delimitação de períodos. O item extrapola completamente o conteúdo e o argumento do texto, que não aborda teorias desenvolvimentistas, tradição liberal, crescimento econômico ou colapso ambiental. Mesmo que a banca permita itens que se conectem tematicamente ao texto, a afirmativa apresenta conteúdo substantivamente incorreto independentemente dessa conexão.


Conclusão para o CACD

O candidato deve estar atento à diversidade interna do campo desenvolvimentista, evitando a armadilha de reduzir todas as suas correntes à tradição liberal. Essa é uma distinção fundamental para a prova de História Mundial, que frequentemente cobra o conhecimento das diferentes vertentes teóricas (modernização × estruturalismo × dependência) e suas implicações para a política externa brasileira.

Gabarito: ERRADO :cross_mark:


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Não há polêmica nesse item. Os alunos podem usar como base o que está aqui