Ao falar de “similar meaning”, e não de “identical meaning”, relativamente ao excerto dum texto do filósofo sul-africano Mogobe B. Ramose, o item nos obriga a proceder a uma análise acurada das frases em questão e de seus significados. Ademais, faz-se imprescindível esmiuçar o significado da noção de “similaridade” no contexto denso da argumentação ramosiana, que desconstrói o eurocentrismo. Assim, para decidir o que é similar ou não no item em tela, é preciso levar em conta o status do texto de Ramose e seus objetivos retóricos. Não podemos nos escorar preguisosamente numa definição escolar e descontextualizado do qualificativo “similar”. Ao realizar tal análise, termo por termo, excluindo, num primeiro momento, o pivô verbal de cada uma das duas frases em cotejo, revela-se uma grande conformidade semântica entre elas. Constata-se uma escolha pertinente de substitutos (“unswervingly committed to the will to”/“unremmiting desire to”), acompanhada duma adequada repetição de elementos lexicais (“skeptic”, “remain ignorant”, “African philosophy”). Ademais, o uso dum período complexo no exemplo proposto pelo item, quando comparado ao texto de Mogobe B. Ramose, no qual temos uma frase simples, não atrapalha em nada certos paralelismos semânticos. Algumas semelhanças, destarte, são reais. Nosso recurso se concentrará, assim, no que há de profundamente problemático na suposta similaridade de significação: o valor semântico dos predicados. Ramose assevera que o cético [ocidental] simplesmente, sem rodeios, rejeita algo, isto é, ele é “simply dismissive of any possibility let alone the probability of African philosophy”, enquanto o item 146 propõe a afirmação de que aqueles que são céticos (“those who are skeptic”) minoram algo: “play down the idea that there could be an African philosophy”. O adjetivo polissêmico “dismissive” carrega uma acepção forte, a denotação de “aquele ou aquilo que rejeita, recusa”. Ele pode, eventualmente, ostentar uma acepção figurada, conotativa, mais fraca, de “aquele ou aquilo que faz pouco caso de algo ou alguém”. Na passagem do filósofo sul-africano, o uso denotativo forte se faz evidente, confirmado pelo determinante “any”, que estrutura uma privação sustentada, reforçada pelo “let alone”. Asservera-se que não pode haver, de modo algum, no olhar do cético [ocidental], qualquer (any) possibilidade, ainda menos (let alone) a probabilidade de filosofia africana. Aliás, o uso do singular por Ramose não é sem repercussões semânticas. Acaba reforçando o aspecto unilateral e inegociável do caráter não filosófico que teria o pensamento africano aos olhos do cético exemplar ocidental que se ergue sozinho do alto de seu ceticismo. O item 146, por sua parte, propõe uma asserção que poderia ter saído da boca do “condescendor”, do qual Ramose fala um pouco mais tarde. No item, aqueles que são céticos não rejeitam, e sim, menos radicalmente, minoram (play down) a ideia de que possa haver uma filosofia africana. Aliás, não afirmamos que estamos diante de uma simples diferença de grau. Há, outrossim, uma discrepância de natureza. O editor de Hegel’s Twilight afirma que o cético exemplar ocidental rejeita simplesmente (“simply”) qualquer possibilidade duma filosofia africana. Já o item 146 não fala duma recusa categórica, e sim de menoscabo (diferença de grau). Ele não nega uma possibilidade fenomênica, mas minora uma construção intelectual (diferença de natureza). O cético exemplar ocidental, segundo Ramose, rejeita uma contingência fática, um existir. Os céticos do item minimizam uma ideia. Há certamente passarelas situacionais entre os enunciados. Porém, não nos foi pedido que identificássemos uma solidariedade ideológica, e sim uma similaridade semântica ao nível enunciativo contextualizado. Descartada qualquer possibilidade de identidade semântica entre os enunciados, a suposta similaridade se revela, igualmente, deveras problemática quando em confronto com a argumentação de Ramose e o status de seu texto. Estamos diante do excerto dum ensaio filosófico de crítica abrangente a certa arrogância do pensamento ocidental. Se um espírito traquinas, oficiando como revisor, tivesse modificado a frase de Ramose, substituindo-a pela formulação do item 146, o texto passaria a afirmar timidamente que o eurocentrismo sistêmico não se manifesta amiúde pela rejeição sumária com fumos de ceticismo filosófico, e sim por, na pior das hipóteses, um menoscabo altivo misturado de incompreensão, próprio de qualquer relação de alteridade, tal qual aquela entre zulus e xosas ou mongóis e chineses. Esfacelar-se-ia, assim, toda a argumentação de Ramose. Haveria algo de completamente dissimilar, discrepante, incompatível. Medindo-os pela situação textual concreta e pela natureza dos argumentos de Ramose, inseridos num proceder crítico radical, não há similaridade nenhuma entre os enunciados, mas falsa parecença, equivalência cúmplice e fantasiosa