Questão 39 item 171 - (Política Internacional - 1a Fase - CACD 2026). Assinado em 2010 pela Rússia e pelos EUA, o tratad

Enunciado:

Acerca do atual ambiente internacional, marcado pela erosão dos mecanismos de controle de armamentos e pela crescente ameaça do uso de armas nucleares, julgue os itens que se seguem.

Texto do item:

Assinado em 2010 pela Rússia e pelos EUA, o tratado New START, que estabelecia limites quantitativos e qualitativos para os arsenais nucleares estratégicos dos dois países, expirou em fevereiro de 2026 e, embora essa expiração possa trazer prejuízos para ambos os países, não tem repercuções relevantes para outras potências nucleares nem para o regime multilateral do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

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ERRADO.

A afirmativa contém múltiplos erros — tanto conceituais quanto factuais — que a tornam incorreta. Vejamos ponto a ponto:


1. Data de assinatura e partes: CORRETO (parcialmente)

O New START foi um tratado de redução de armas nucleares entre os Estados Unidos e a Rússia, assinado em 8 de abril de 2010, em Praga, tendo entrado em vigor em 5 de fevereiro de 2011.


2. “Limites quantitativos e qualitativos”: INCORRETO

Este é um erro técnico importante. O New START estabelecia essencialmente limites quantitativos (numéricos), e não qualitativos.
O tratado limitava cada parte a 1.550 ogivas nucleares estratégicas desdobradas, 800 lançadores estratégicos desdobrados e não desdobrados, e não mais que 700 ICBMs, SLBMs e bombardeiros pesados desdobrados.

Cada parte tinha flexibilidade para determinar por si mesma a estrutura de suas forças, desde que respeitados os limites centrais. O tratado dava aos EUA flexibilidade para desdobrar e manter suas forças nucleares estratégicas da maneira que melhor servisse aos interesses de segurança nacional.

O tratado não restringia a modernização dos arsenais nem impunha limites sobre os tipos ou características qualitativas das armas — tanto que EUA e Rússia conduziram extensos programas de modernização durante sua vigência.
O tratado tampouco limitava o número de ogivas nucleares operacionalmente inativas que poderiam ser estocadas, um número na casa dos milhares.
Embora o VCDNP tenha mencionado que Putin propôs manter os “limites quantitativos e qualitativos” do tratado, isso se refere a aspectos marginais (como a proibição de sistemas de recarga rápida), e não a uma limitação qualitativa no sentido robusto que a afirmativa sugere.


3. Expiração em fevereiro de 2026: CORRETO

Em 5 de fevereiro de 2026, o tratado expirou oficialmente.

O New START, inicialmente acordado em 2010 e estendido por cinco anos em 2021, limitava os arsenais nucleares estratégicos desdobrados dos EUA e da Rússia.

O tratado foi concluído com duração de 10 anos, iniciada em 2011, e uma única extensão de cinco anos, exercida em 2021.


4. “Não tem repercussões relevantes para outras potências nucleares nem para o TNP”: GRAVEMENTE INCORRETO

Este é o erro central e mais grave da afirmativa. A expiração do New START tem repercussões profundas tanto para outras potências nucleares quanto para o regime do TNP. As evidências são abundantes:

a) Repercussões para outras potências nucleares

A expansão das forças nucleares chinesas, um fator sequer capturado pelo New START, será o fator dominante após a expiração do tratado.

A China não é parte do New START e nunca foi parte de um acordo para limitar armas nucleares estratégicas. O Departamento de Defesa dos EUA estima que o arsenal nuclear chinês esteja na faixa de 600 ogivas (tendo quase triplicado desde 2020) e projeta que a China estará a caminho de atingir 1.000 ogivas até 2030.

Após a expiração do New START, a administração Trump declarou que um novo tratado de controle de armas nucleares deveria incluir a China.

Os esforços provavelmente serão ainda mais complicados pela insistência de Moscou nos últimos anos de que qualquer novo tratado de controle de armas deveria incluir também o Reino Unido e a França.

Um TNP enfraquecido tornará mais difícil lidar com desafios de proliferação no Oriente Médio, alcançar progresso na desnuclearização da Península Coreana, e provavelmente alimentará debates crescentes no Japão, Polônia, Coreia do Sul, Ucrânia e outros locais sobre os méritos de adquirir armas nucleares.

b) Repercussões para o regime do TNP

O colapso do controle bilateral de armas entre as principais potências nucleares mina significativamente a credibilidade do regime mais amplo de não-proliferação nuclear. Sob o TNP, os Estados não-nucleares aceitaram a abstenção permanente de armas nucleares em troca de acesso à tecnologia nuclear pacífica e de um compromisso dos Estados nucleares de buscar o desarmamento. O recuo visível do controle de armas enfraquece essa barganha.

Para muitos Estados não-nucleares, a expiração do New START reforça a percepção de que as potências nucleares estão priorizando a competição estratégica sobre as obrigações de desarmamento. Essa erosão de confiança complica esforços para fortalecer as normas de não-proliferação e pode encorajar proliferadores ou Estados limítrofes a questionar o valor de longo prazo da contenção.

A adesão aos limites do New START poderia ter efeito político mais significativo no contexto do regime de não-proliferação nuclear. Por anos, Estados não-nucleares têm criticado cada vez mais os Estados nucleares por não implementarem o Artigo VI do TNP, que os obriga a buscar o desarmamento nuclear. A expiração do New START poucos meses antes da Conferência de Revisão do TNP, que começa em 27 de abril em Nova York, provavelmente intensificará essas preocupações.

A maioria dos países na Conferência de Revisão provavelmente não será convencida por esse jogo de culpas e demandará ação urgente para cumprir o Artigo VI do TNP. Alguns podem até concluir que sua segurança na situação atual requer que comecem a desenvolver suas próprias armas nucleares. Isso poderia ser um desastre para o regime de não-proliferação e minar a estabilidade global.


Síntese para o candidato ao CACD

A afirmativa erra em dois pontos fundamentais:

  1. Erro técnico: O New START estabelecia limites quantitativos, não qualitativos no sentido relevante. As partes mantiveram liberdade para modernizar seus arsenais.

  2. Erro conceitual grave: Afirmar que a expiração do New START “não tem repercussões relevantes para outras potências nucleares nem para o TNP” contraria frontalmente a realidade das relações internacionais contemporâneas. O tratado era considerado a pedra angular remanescente do controle bilateral de armas e um pilar do cumprimento do Artigo VI do TNP (obrigação de desarmamento). Sua expiração afeta diretamente a dinâmica com a China (cujo arsenal está em rápida expansão), gera pressões sobre o Reino Unido e a França (que são chamados a participar de futuros arranjos), e mina a credibilidade da “grande barganha” do TNP entre Estados nucleares e não-nucleares — com repercussões diretas na Conferência de Revisão do TNP de 2026.

Portanto, a afirmativa é ERRADA.


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