Questão 4 item 23 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). No último período do texto de Voltaire, os vocábul

Enunciado:

“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo.” “O que é otimismo?”, dizia Cacambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal.” (…) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: “Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches”.

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, pp. 83 e 128

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso… (…) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação… Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou: — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento? — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo. E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce: — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu, mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguìsticos e literários dos fragmentos.

Texto do item:

No último período do texto de Voltaire, os vocábulos ‘Cunegunda’, ‘Inquisição’, ‘América’ e ‘Eldorado’ exercem função conotativa e alegórica, enquanto “Adão” e “Eva”, no primeiro e no terceiro períodos do texto machadiano, têm caráter denotativo e literal, pois são nomes próprios dos protagonistas de uma narrativa real.

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ERRADO.


Análise detalhada

A afirmativa propõe uma oposição entre o uso connotativo/alegórico dos nomes próprios em Voltaire e o uso supostamente denotativo/literal de “Adão” e “Eva” em Machado de Assis. Essa oposição é falsa por múltiplas razões.


1. Sobre os termos em Voltaire

É razoável afirmar que Cunegunda, Inquisição, América e Eldorado possuem, no contexto da obra Cândido, uma dimensão alegórica e connotativa. Voltaire os utiliza como representações de conceitos mais amplos — o amor idealizado, a intolerância religiosa, o colonialismo e a utopia, respectivamente — dentro de sua sátira ao otimismo leibniziano. Contudo, vale destacar que esses termos também operam em nível denotativo dentro da diegese (são referências a personagens, lugares e instituições da narrativa). Não se trata, portanto, de uma função exclusivamente connotativa.


2. Sobre “Adão” e “Eva” em Machado de Assis — o erro central

A afirmativa erra gravemente ao sustentar que “Adão” e “Eva” no texto machadiano possuem caráter denotativo e literal por serem “nomes próprios dos protagonistas de uma narrativa real”. Os problemas são os seguintes:

a) A narrativa bíblica não é, em termos literários, uma “narrativa real”

A história de Adão e Eva pertence ao gênero mítico-religioso. Mesmo para a tradição teológica que a aceita como verdadeira, ela carrega uma dimensão simbólica e alegórica (a queda, o pecado original, a perda da inocência). Classificá-la como “narrativa real” em um contexto de análise literária é um equívoco conceitual.

b) Machado emprega Adão e Eva de forma deliberadamente alegórica e paródica

O conto Adão e Eva é uma narrativa encaixada (mise en abyme): o juiz de fora Veloso conta, durante um jantar, uma versão heterodoxa da Criação, na qual Adão e Eva resistem à tentação da serpente. Trata-se de uma reescritura irônica do mito bíblico, carregada de intertextualidade e conotação filosófica. Tanto é assim que os próprios convivas reagem com estranhamento, chamando a história de “narração enigmática” e “sem sentido aparente”.

c) A fala final do juiz de fora ecoa a lógica panglossiana

A frase “se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce” é uma paráfrase quase literal da lógica do encadeamento causal de Pangloss (“se não tivésseis sido expulso… não comeríeis aqui cidras”). Isso demonstra que Machado usa “Adão” e “Eva” justamente como elementos alegóricos e intertextuais, e não como referências denotativas a personagens de uma “narrativa real”.


3. Síntese

A oposição proposta pela banca é falsa: tanto Voltaire quanto Machado utilizam seus nomes próprios com camadas de significação que ultrapassam o nível denotativo. No caso de Machado, “Adão” e “Eva” são tão alegóricos quanto os termos voltairianos — e o conto machadiano é, na verdade, um diálogo intertextual direto com a filosofia satirizada em Cândido, o que reforça a natureza connotativa e simbólica de ambas as obras.

Referência doutrinária: A distinção entre denotação e conotação é consolidada na linguística e na estilística (cf. FIORIN, José Luiz. Introdução à Linguística; BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa). A conotação envolve sentidos figurados, simbólicos ou culturalmente agregados que ultrapassam o significado referencial direto — exatamente o que Machado faz com as figuras bíblicas.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.

Errada. Os vocábulos destacados do texto de Voltaire têm função denotativa; são nomes próprios assim como os do texto de Machado.