Questão 4 item 29 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). Há uma equivalência entre o 'melhor dos mundos pos

Enunciado:

“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo.” “O que é otimismo?”, dizia Cacambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal.” (…) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: “Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis, pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches”.

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012, pp. 83 e 128

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso… (…) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação… Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou: — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento? — Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo. E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce: — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu, mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguìsticos e literários dos fragmentos.

Texto do item:

Há uma equivalência entre o ‘melhor dos mundos possíveis’, mencionado por Pangloss (último período do texto de Voltaire), e o “céu, ao som de todas as cítaras”, mencionado pelo juiz Sr. Veloso (terceiro período do primeiro parágrafo do texto de Machado de Assis): ambos remetem ao paraíso de delícias, simbolizado, nos dois textos, pela metáfora das iguarias.

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CERTO

Análise fundamentada

A afirmativa está correta ao identificar uma equivalência funcional e simbólica entre o “melhor dos mundos possíveis” de Pangloss e o “céu, ao som de todas as cítaras” da narrativa do juiz Veloso. Vejamos por quê:


1. Equivalência estrutural e retórica

Ambos os textos empregam a mesma estrutura argumentativa condicional contrafactual:

  • Voltaire (Pangloss): “se não tivésseis sido expulso… se não tivésseis sido submetido à Inquisição… se não tivésseis percorrido a América… não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches.”
  • Machado (juiz Veloso): “se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma coisa primorosa.”

Nos dois casos, uma cadeia de eventos (terríveis ou hipotéticos) é apresentada como condição necessária para o gozo presente — que se materializa, concretamente, em iguarias: cidras recheadas de pistaches (Voltaire) e doce (Machado).


2. A equivalência conceitual: “paraíso de delícias”

O “melhor dos mundos possíveis” é a tese leibniziana satirizada por Voltaire: este mundo, apesar de todo o sofrimento, seria o melhor que Deus poderia criar — um verdadeiro paraíso otimista. Já o “céu, ao som de todas as cítaras” é literalmente o paraíso celeste na narrativa alternativa do Gênesis contada pelo juiz Veloso, em que Adão e Eva, resistindo à tentação, entram no céu diretamente.

Ambos os conceitos remetem a um estado ideal — um “paraíso de delícias” — embora operem em registros diferentes (filosófico em Voltaire; teológico-ficcional em Machado). A equivalência funcional, contudo, é precisa: nos dois textos, o “paraíso” se reduz ironicamente ao prazer gastronômico.


3. A metáfora das iguarias

É aqui que reside o ponto mais refinado da comparação. Em ambos os textos, a comida funciona como símbolo concreto do suposto paraíso:

Texto Paraíso abstrato Iguaria concreta
Voltaire “melhor dos mundos possíveis” cidras recheadas de pistaches
Machado “céu, ao som de todas as cítaras” doce primoroso

A grandiosidade filosófica ou teológica do “paraíso” é deflacionada ironicamente ao plano trivial do prazer culinário. As iguarias não são mero cenário: elas simbolizam o resultado final do encadeamento otimista de eventos. A comida, nos dois textos, é a prova material de que “tudo está bem” — o que confere ao alimento um valor metafórico de representação do paraíso.


4. Intertextualidade machadiana

A crítica literária reconhece amplamente que “Adão e Eva” é um diálogo intertextual com Voltaire. Machado de Assis, leitor contumaz de Voltaire, replica a estrutura do argumento panglossiano na fala do juiz Veloso, invertendo a narrativa do Gênesis para chegar à mesma conclusão irônica: o “paraíso” se resume ao desfrute presente de um doce. Essa relação intertextual confirma a equivalência apontada pela afirmativa.


Conclusão

A afirmativa está CERTA porque identifica com precisão:

  1. A equivalência funcional entre os dois conceitos de “paraíso” (filosófico e teológico);
  2. A convergência de ambos para a noção de um paraíso de delícias;
  3. O papel das iguarias como metáfora que simboliza, nos dois textos, esse paraíso — com a mesma carga de ironia e deflação do grandioso ao trivial.

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