Questão 45 item 196 - (Economia - 1a Fase - CACD 2026). Como o modelo especifica apenas a demanda de traba

Enunciado:

Considere uma economia descrita pelo seguinte sistema de equações, em tempo contínuo.

Função de produção agregada
Y = F(K, N) FK > 0, FN > 0, FKN > 0, FNN < 0, FKK < 0 , em que Fi é a primeira derivada da função de produção com relação ao insumo i, e Fii é a segunda derivada da função de produção com relação ao insumo i
Demanda de trabalho em termos reais w/P = FN
Função Investimento
I = I(q(K, N, r − π) − 1) I’ < 0, em que I’ é a derivada do investimento em relação à taxa de juros
Função Consumo
C = C(Y − T) 0 < C’ < 1, em que C’ é a derivada do consumo em relação à renda disponível
Equilíbrio no mercado de bens
Y = C + I + G + δK (5)
Equilíbrio Monetário
M/P = m(Y, r) (6), em que Y é o produto, N o emprego, K o estoque de capital, w o salário nominal, P o nível geral de preços, r a taxa nominal de juros, π a taxa de inflação, q o Q de Tobin, I o investimento, C o consumo, T os tributos autônomos, G os gastos autônomos do governo, m(Y, r) a demanda real por moeda e M o estoque nominal de moeda, δK a taxa de depreciação do estoque de capital.
Considere, ainda, um regime em que
o governo (via Banco Central) controla exogenamente a quantidade de moeda M;
o estoque de capital é constante no tempo.

A respeito dessa economia, julgue os itens que se seguem.

Texto do item:

Como o modelo especifica apenas a demanda de trabalho das firmas, dada por w/P = FN(K,N), e não uma oferta de trabalho, choques que alterem o salário nominal w ou o nível de preços P podem modificar o emprego N e o produto Y mesmo sem qualquer mudança nas preferências dos trabalhadores, de modo que variáveis estritamente nominais influenciam variáveis reais, no curto prazo.

Participe das discussões abaixo gratuitatmente. Caso não tenha conta no ClippingCACD, basta criar uma conta gratuitamtente. Não é necessário assinar para participar.
Fez a prova? Junte-se ao ranking e confira o gabarito em https://depoisdaprova.com.br .

CERTO

Análise da Estrutura do Modelo

A afirmação está correta e toca em um ponto fundamental da macroeconomia keynesiana: a ausência de uma curva de oferta de trabalho no modelo implica que o mercado de trabalho não se “fecha” por si só, permitindo que variáveis nominais afetem variáveis reais.


Raciocínio Detalhado

1. O que o modelo contém no mercado de trabalho

O modelo especifica apenas a demanda de trabalho das firmas:

\frac{w}{P} = F_N(K, N)

Essa equação diz que as firmas contratam trabalho até o ponto em que o salário real iguale a produtividade marginal do trabalho. Com F_{NN} < 0 (rendimentos marginais decrescentes), essa relação é inversamente inclinada no plano (N, w/P): quanto maior o emprego, menor o salário real compatível com a maximização de lucro.

2. O que o modelo não contém

Não há uma equação de oferta de trabalho do tipo:

N^s = N^s\!\left(\frac{w}{P}\right)

Em um modelo clássico completo (como nos modelos de equilíbrio walrasiano ou nos modelos RBC), a interseção entre oferta e demanda de trabalho determinaria simultaneamente o salário real de equilíbrio (w/P)^* e o nível de emprego N^*. Nesse caso, variações puramente nominais em w ou P que preservassem w/P não teriam efeito real — o mercado se ajustaria autonomamente.

3. Como o emprego é determinado neste modelo

Na ausência de oferta de trabalho, a determinação do emprego segue uma lógica keynesiana de demanda efetiva:

  1. IS-LM determinam Y e r: O equilíbrio simultâneo no mercado de bens (eq. 5) e no mercado monetário (eq. 6), dado M, G, T e P, define o produto Y e a taxa de juros r.

  2. A função de produção determina N: Como K é fixo, Y = F(K, N) pode ser invertida para obter N = F^{-1}(Y; K). O emprego é determinado pela demanda agregada, não pelo equilíbrio autônomo do mercado de trabalho.

  3. A demanda de trabalho determina w/P: Uma vez conhecido N, a equação w/P = F_N(K, N) apenas indica qual é o salário real consistente com esse nível de emprego.

4. Por que variáveis nominais afetam variáveis reais

Considere o mecanismo:

  • Choque em P (por exemplo, via expansão monetária \uparrow M): Se w é rígido (ou predeterminado), \uparrow P \Rightarrow \downarrow (w/P). Com salário real menor, as firmas desejam contratar mais ao longo da curva de demanda de trabalho. Simultaneamente, pelo lado da demanda agregada, \uparrow M \Rightarrow deslocamento da LM \Rightarrow \uparrow Y \Rightarrow \uparrow N.

  • Choque em w (por exemplo, via política salarial ou indexação): Se P não se ajusta instantaneamente, \uparrow w \Rightarrow \uparrow (w/P) \Rightarrow firmas reduzem emprego ao longo da demanda de trabalho \Rightarrow \downarrow N \Rightarrow \downarrow Y.

Em ambos os casos, não houve qualquer mudança nas preferências dos trabalhadores (que sequer aparecem no modelo), mas o emprego e o produto se alteram. Isso é a essência da não-neutralidade da moeda no curto prazo em modelos keynesianos.

5. Fundamento doutrinário

Esse é um resultado clássico da tradição keynesiana, amplamente discutido na literatura:

  • Blanchard & Fischer (Lectures on Macroeconomics, Cap. 10): Modelos com rigidez nominal de salários, nos quais a ausência de market-clearing no mercado de trabalho permite que variações no nível de preços afetem o emprego.
  • Keynes (Teoria Geral, Cap. 2): A rejeição do segundo postulado clássico — de que o salário real é igual à desutilidade marginal do trabalho — implica que o emprego pode ser determinado fora do equilíbrio walrasiano do mercado de trabalho.
  • Mankiw & Romer (New Keynesian Economics): A rigidez nominal como fonte de não-neutralidade monetária.

No contexto do CACD, este tipo de modelo aparece recorrentemente em questões que exploram a diferença entre modelos clássicos (com market-clearing em todos os mercados) e modelos keynesianos (com rigidez nominal e demanda efetiva).


Síntese

Aspecto Neste Modelo
Oferta de trabalho Ausente
Determinação de N Via demanda agregada (Y) e função de produção
Papel de w/P = F_N Determina o salário real ex post, não fecha o mercado
Efeito de choques nominais Afetam N e Y — moeda não é neutra no curto prazo

A afirmação está correta: a ausência de uma curva de oferta de trabalho é precisamente o que permite que choques puramente nominais (em w ou P) transmitam-se para o lado real da economia, sem necessidade de qualquer alteração nas preferências dos trabalhadores.


Comentário automático feito pela inteligência artificial do Clipping.ai apenas para referência. Comentários dos nossos professores virão a seguir.