Questão 45 item 197 - (Economia - 1a Fase - CACD 2026). Como o produto de equilíbrio é dado pela função de

Enunciado:

Considere uma economia descrita pelo seguinte sistema de equações, em tempo contínuo.

Função de produção agregada
Y = F(K, N) FK > 0, FN > 0, FKN > 0, FNN < 0, FKK < 0 , em que Fi é a primeira derivada da função de produção com relação ao insumo i, e Fii é a segunda derivada da função de produção com relação ao insumo i
Demanda de trabalho em termos reais w/P = FN
Função Investimento
I = I(q(K, N, r − π) − 1) I’ < 0, em que I’ é a derivada do investimento em relação à taxa de juros
Função Consumo
C = C(Y − T) 0 < C’ < 1, em que C’ é a derivada do consumo em relação à renda disponível
Equilíbrio no mercado de bens
Y = C + I + G + δK (5)
Equilíbrio Monetário
M/P = m(Y, r) (6), em que Y é o produto, N o emprego, K o estoque de capital, w o salário nominal, P o nível geral de preços, r a taxa nominal de juros, π a taxa de inflação, q o Q de Tobin, I o investimento, C o consumo, T os tributos autônomos, G os gastos autônomos do governo, m(Y, r) a demanda real por moeda e M o estoque nominal de moeda, δK a taxa de depreciação do estoque de capital.
Considere, ainda, um regime em que
o governo (via Banco Central) controla exogenamente a quantidade de moeda M;
o estoque de capital é constante no tempo.

A respeito dessa economia, julgue os itens que se seguem.

Texto do item:

Como o produto de equilíbrio é dado pela função de produção Y = F(K,N) e pelo estoque de capital constante no curto prazo, um aumento permanente da quantidade de moeda M, com salário nominal w dado, é necessariamente neutro: eleva apenas o nível de preços P, sem alterar o produto real Y nem o emprego N.

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ERRADO

Raciocínio Completo

A afirmação comete um erro fundamental ao concluir que a moeda é neutra nesta economia. Vamos destrinchar o modelo passo a passo para demonstrar por que a expansão monetária tem efeitos reais nesta configuração.


1. Construção da Oferta Agregada (com salário nominal rígido)

O ponto-chave está na interação entre a condição de demanda por trabalho e a função de produção, dado que w é fixo e K é constante.

Da condição de equilíbrio no mercado de trabalho:

\frac{w}{P} = F_N(K, N)

Como w é dado (fixo) e K é constante, esta equação estabelece uma relação entre P e N. Diferenciando implicitamente:

-\frac{w}{P^2}dP = F_{NN} \cdot dN \implies \frac{dN}{dP} = -\frac{w}{P^2 \cdot F_{NN}}

Dado que F_{NN} < 0 (rendimentos marginais decrescentes do trabalho), temos:

\frac{dN}{dP} > 0

Ou seja, um aumento no nível de preços P reduz o salário real w/P, o que torna lucrativo para as firmas contratarem mais trabalhadores. Como N aumenta e F_N > 0:

Y = F(K, N) \implies \frac{dY}{dP} = F_N \cdot \frac{dN}{dP} > 0

Conclusão parcial: A curva de Oferta Agregada (AS) é positivamente inclinada no plano (Y, P) — e não vertical. Isso decorre diretamente da rigidez do salário nominal.


2. O lado da Demanda Agregada (IS-LM)

O equilíbrio no mercado de bens (equação 5) e o equilíbrio monetário (equação 6) definem conjuntamente uma curva de Demanda Agregada (AD) no plano (Y, P).

Do equilíbrio monetário:

\frac{M}{P} = m(Y, r)

Um aumento permanente em M, com P inicialmente dado, gera um excesso de oferta de moeda. Isso pressiona a taxa de juros r para baixo. Com r menor:

  • O q de Tobin sobe (pois q depende negativamente de r - \pi), estimulando o investimento I;
  • A demanda agregada se expande.

Em termos gráficos, a curva AD se desloca para a direita.


3. Novo Equilíbrio: Interseção AD–AS

O novo equilíbrio ocorre na interseção da nova AD (deslocada para a direita) com a AS positivamente inclinada:

Variável Efeito
P Sobe (mas não proporcionalmente a M)
Y Sobe
N Sobe (mais trabalhadores contratados)
w/P Cai (salário real menor)
r Cai (no equilíbrio parcial; efeito líquido depende dos parâmetros)

A moeda não é neutra: ela produz efeitos reais sobre Y, N e w/P.


4. Onde estaria a neutralidade?

A neutralidade da moeda requer a dicotomia clássica, que só se sustenta quando todos os preços nominais (inclusive salários) são perfeitamente flexíveis. Nesse caso, a curva AS seria vertical: um aumento em M deslocaria a AD, mas o ajuste seria inteiramente absorvido por P, sem efeito sobre Y.

No modelo proposto, a rigidez nominal do salário (w dado) quebra a dicotomia clássica. A AS tem inclinação positiva, e variações nominais produzem efeitos reais. Este é um resultado central da macroeconomia keynesiana/novo-keynesiana, amplamente discutido em:

  • Blanchard & Fischer (Lectures on Macroeconomics, Cap. 10): modelos com rigidez nominal de salários geram não-neutralidade monetária.
  • Olivier Blanchard (Macroeconomia, 7ª ed.): a curva AS é positivamente inclinada quando o salário nominal é rígido.
  • Dornbusch, Fischer & Startz (Macroeconomics): o modelo AS-AD com salário nominal fixo mostra que a política monetária tem efeitos reais no curto prazo.

Síntese do Erro da Afirmação

A afirmação erra ao dizer que “um aumento de M é necessariamente neutro”. O raciocínio equivocado implícito é tratar a função de produção Y = F(K,N) como se, com K fixo, Y e N fossem automaticamente fixos. Mas N não é exógeno neste modelo: ele é determinado endogenamente pela condição w/P = F_N(K, N). Com w rígido, uma variação em P altera o salário real e, consequentemente, o emprego e o produto.

Gabarito: ERRADO. Com salário nominal rígido, a curva de oferta agregada é positivamente inclinada, e a expansão monetária eleva tanto P quanto Y e N. A moeda não é neutra nesta economia.


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