CERTO
Análise do paradoxo identificado pela afirmativa
A afirmativa identifica, com acuidade, o paradoxo central do raciocínio de Antonio Candido neste trecho do prefácio de O discurso e a cidade. Vejamos por quê, decompondo o argumento passo a passo.
1. A autonomia da obra literária
Candido afirma que, por meio da redução estrutural, “a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo”. Em seguida, ele reforça que a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulando-os “a fim de se tornar uma realidade de organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser”.
Ou seja, a obra literária obedece a leis internas (estéticas, formais, composicionais), e não simplesmente espelha ou replica a realidade empírica. Nesse sentido, a expressão “distanciar-se da realidade” usada pela afirmativa é uma paráfrase aceitável: a obra não se submete às leis do mundo externo, conquanto dele se alimente. Há, assim, uma mediação transformadora — o que Candido chama de redução estrutural — que implica, sim, um afastamento da realidade imediata para recriá-la esteticamente.
2. O retorno paradoxal da realidade
Logo depois de afirmar essa autonomia, Candido introduz a adversativa-concessiva “No entanto”: apesar de a obra ser regida por leis próprias, “natureza, sociedade e ser aparecem presentes em cada página”, e o leitor tem “a impressão de estar vivendo um conjunto de realidades vitais”.
Aqui reside o paradoxo: a obra que se torna autônoma (e, portanto, se “distancia” da realidade bruta ao transformá-la esteticamente) é justamente a que consegue devolver ao leitor a experiência da realidade de modo mais pleno e envolvente.
3. A relação de finalidade
A afirmativa reformula a relação concessive-adversativa (“no entanto”) como uma relação de finalidade: a autonomia estética existe para que a representação efetiva se realize. Essa reformulação é legítima dentro da lógica do texto, porque Candido não apresenta a autonomia como um obstáculo à representação da realidade, mas sim como condição para que ela se dê de modo eficaz. A conjunção “no entanto” marca a aparência de contradição, mas o argumento do conjunto mostra que é exatamente a mediação estética (autonomia) que possibilita a experiência das “realidades vitais” pelo leitor.
4. Fundamentação doutrinária
Esse raciocínio é coerente com a teoria crítica de Antonio Candido desenvolvida ao longo de sua obra, sobretudo em Literatura e Sociedade (1965) e no próprio O discurso e a cidade (1993). O conceito de redução estrutural designa o processo pelo qual dados externos (sociais, históricos, psicológicos) são internalizados na forma literária, tornando-se elementos da estrutura da obra. Não se trata de mera “reflexão” da realidade (como num espelho passivo), nem de puro formalismo (que ignora o mundo externo), mas de uma dialética entre forma e conteúdo social — o que Candido chama de crítica integradora.
O paradoxo é, portanto, constitutivo dessa concepção: quanto mais a obra organiza esteticamente os materiais extraídos da realidade (quanto mais “autônoma” ela se torna), mais capaz ela é de oferecer ao leitor a experiência de “realidades vitais”.
Conclusão
A afirmativa descreve corretamente o paradoxo exposto por Candido: a autonomia estética da obra (o fato de ela se reger por leis próprias e não pelas da natureza, da sociedade ou do ser) é precisamente o que lhe permite representar a realidade de forma tão eficaz que o leitor a experimenta como “realidades vitais”. A paráfrase “distanciar-se da realidade” capta adequadamente a ideia de que a obra não replica o real de maneira direta, mas o transforma via redução estrutural — e essa transformação é a condição mesma da representação efetiva.
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