ERRADO
Análise detalhada
A afirmativa contém dois problemas fundamentais: um de natureza gramatical (parcialmente correto) e outro de natureza interpretativa (claramente incorreto).
1. Sobre a função da vírgula após “crítica integradora”
Releiamos o trecho relevante:
"O meu propósito é fazer uma crítica integradora*,** capaz de mostrar (…) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulando-os a fim de se tornar uma realidade de organização estética regida pelas suas próprias leis (…)"*
A vírgula após “crítica integradora” de fato introduz um aposto explicativo — o segmento “capaz de mostrar (…)” funciona como uma expansão que delimita e esclarece o que Candido entende por “crítica integradora”. Nesse ponto, a assertiva está parcialmente correta: a vírgula realmente destaca a enunciação do sentido atribuído pelo autor ao conceito.
Conforme a tradição gramatical (cf. Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo; Bechara, Moderna Gramática Portuguesa), o aposto explicativo é isolado por vírgula(s) e tem função de esclarecer, definir ou especificar o termo ao qual se refere.
2. Sobre a definição atribuída à “crítica integradora” — aqui está o erro decisivo
A afirmativa diz que, segundo Candido, a crítica integradora seria aquela em que “a narrativa manipula dos dados externos a fim de evitar uma representação distorcida da realidade”.
Isso não corresponde ao que o texto diz. Vejamos o que Candido realmente afirma:
A narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulando-os a fim de se tornar uma realidade de organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser.
A finalidade descrita por Candido é diametralmente diferente:
| O que a afirmativa diz |
O que Candido realmente diz |
| A narrativa manipula dados externos para evitar representação distorcida da realidade. |
A narrativa manipula materiais não literários para se tornar uma realidade estética autônoma, regida por suas próprias leis. |
Candido está descrevendo o processo de autonomia estética da obra literária. A “crítica integradora” que ele propõe busca mostrar como os materiais extraliterários (sociais, históricos, psicológicos etc.) são incorporados e transformados pela estrutura da obra, de modo que esta passe a funcionar segundo leis próprias — e não segundo as leis da natureza, da sociedade ou do ser.
Em nenhum momento Candido afirma que o propósito da manipulação dos dados externos seria “evitar uma representação distorcida da realidade”. Pelo contrário, o conceito de redução estrutural (que ele menciona no primeiro período) diz respeito justamente à transfiguração da realidade em componente estético — e não à sua reprodução fiel ou à prevenção de distorções.
3. Síntese do erro
A assertiva deturpa o conceito central de Candido. Para ele, a crítica integradora não visa à fidelidade representacional, mas sim a demonstrar o mecanismo pelo qual a realidade é reduzida estruturalmente e convertida em elemento de uma organização estética autônoma. A finalidade não é “evitar distorção”, mas compreender como a obra cria sua própria ordem interna a partir de materiais do mundo.
Essa é, aliás, uma das contribuições mais importantes de Antonio Candido à teoria literária brasileira, desenvolvida ao longo de obras como Literatura e Sociedade (1965) e O Discurso e a Cidade (2004): a ideia de que o externo (o social) se torna interno (estrutural) na obra literária.
Gabarito: ERRADO.
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