Questão 5 item 35 - (Língua Portuguesa - 1a Fase - CACD 2026). No segundo período, a vírgula empregada após "crít

Enunciado:

Os ensaios da primeira parte deste livro tentam analisar alguns casos do que chamei redução estrutural, isto é, o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que seja estudada em si mesma, como algo autônomo. O meu propósito é fazer uma crítica integradora, capaz de mostrar (não apenas enunciar teoricamente, como é hábito) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulando-os a fim de se tornar uma realidade de organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser. No entanto, natureza, sociedade e ser aparecem presentes em cada página, tanto assim que o leitor tem a impressão de estar vivendo um conjunto de realidades vitais, de estar aprendendo, participando, aceitando ou negando, como se estivesse envolvido nos problemas que eles suscitam.

Antonio Candido. Prefácio. In: O discurso e a cidade. São Paulo, Rio de Janeiro: Duas Cidades, Ouro sobre Azul, 2004, p. 9

Julgue os itens a seguir, acerca dos sentidos e estruturas linguísticas do texto de Antonio Candido:

Texto do item:

No segundo período, a vírgula empregada após “crítica integradora” destaca a enunciação do sentido dado pelo autor do texto a um ato crítico integrador, que, segundo ele, é aquele que a narrativa manipula dos dados externos a fim de evitar uma representação distorcida da realidade.

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ERRADO


Análise detalhada

A afirmativa contém dois problemas fundamentais: um de natureza gramatical (parcialmente correto) e outro de natureza interpretativa (claramente incorreto).


1. Sobre a função da vírgula após “crítica integradora”

Releiamos o trecho relevante:

"O meu propósito é fazer uma crítica integradora*,** capaz de mostrar (…) de que maneira a narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulando-os a fim de se tornar uma realidade de organização estética regida pelas suas próprias leis (…)"*

A vírgula após “crítica integradora” de fato introduz um aposto explicativo — o segmento “capaz de mostrar (…)” funciona como uma expansão que delimita e esclarece o que Candido entende por “crítica integradora”. Nesse ponto, a assertiva está parcialmente correta: a vírgula realmente destaca a enunciação do sentido atribuído pelo autor ao conceito.

Conforme a tradição gramatical (cf. Celso Cunha & Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo; Bechara, Moderna Gramática Portuguesa), o aposto explicativo é isolado por vírgula(s) e tem função de esclarecer, definir ou especificar o termo ao qual se refere.


2. Sobre a definição atribuída à “crítica integradora” — aqui está o erro decisivo

A afirmativa diz que, segundo Candido, a crítica integradora seria aquela em que “a narrativa manipula dos dados externos a fim de evitar uma representação distorcida da realidade.

Isso não corresponde ao que o texto diz. Vejamos o que Candido realmente afirma:

A narrativa se constitui a partir de materiais não literários, manipulando-os a fim de se tornar uma realidade de organização estética regida pelas suas próprias leis, não as da natureza, da sociedade ou do ser.

A finalidade descrita por Candido é diametralmente diferente:

O que a afirmativa diz O que Candido realmente diz
A narrativa manipula dados externos para evitar representação distorcida da realidade. A narrativa manipula materiais não literários para se tornar uma realidade estética autônoma, regida por suas próprias leis.

Candido está descrevendo o processo de autonomia estética da obra literária. A “crítica integradora” que ele propõe busca mostrar como os materiais extraliterários (sociais, históricos, psicológicos etc.) são incorporados e transformados pela estrutura da obra, de modo que esta passe a funcionar segundo leis próprias — e não segundo as leis da natureza, da sociedade ou do ser.

Em nenhum momento Candido afirma que o propósito da manipulação dos dados externos seria “evitar uma representação distorcida da realidade”. Pelo contrário, o conceito de redução estrutural (que ele menciona no primeiro período) diz respeito justamente à transfiguração da realidade em componente estético — e não à sua reprodução fiel ou à prevenção de distorções.


3. Síntese do erro

A assertiva deturpa o conceito central de Candido. Para ele, a crítica integradora não visa à fidelidade representacional, mas sim a demonstrar o mecanismo pelo qual a realidade é reduzida estruturalmente e convertida em elemento de uma organização estética autônoma. A finalidade não é “evitar distorção”, mas compreender como a obra cria sua própria ordem interna a partir de materiais do mundo.

Essa é, aliás, uma das contribuições mais importantes de Antonio Candido à teoria literária brasileira, desenvolvida ao longo de obras como Literatura e Sociedade (1965) e O Discurso e a Cidade (2004): a ideia de que o externo (o social) se torna interno (estrutural) na obra literária.


Gabarito: ERRADO.


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