ERRADO.
Análise detalhada
A afirmação apresenta múltiplos problemas, tanto de ordem textual-factual quanto de ordem interpretativa (semântico-sintática). Vejamos cada um:
1. Erro factual: “multiplamente” não existe no texto
A assertiva elenca cinco supostos vocábulos do primeiro período: “imediata”, “multiplamente”, “esclarecimento”, “sem inibições” e “multiplicidade”. Ocorre que a palavra “multiplamente” simplesmente não aparece no texto. O que o texto traz é “multiplicidade” (em “admiração de multiplicidade e grandeza”). Isso, por si só, já compromete a veracidade do item, pois ele atribui ao texto um termo inexistente.
2. Imprecisão terminológica: “sem inibições” não é um vocábulo
A expressão “sem inibições” é uma locução adverbial (preposição + substantivo), e não um vocábulo único. Chamá-la de “vocábulo” é tecnicamente impreciso, o que reforça a fragilidade da assertiva.
3. Erro interpretativo central: os termos do 1.º período NÃO são atributos da concepção “baseada na ordem divina”
Este é o ponto mais importante. Vejamos a estrutura argumentativa do texto:
Primeiro período — Descreve a natureza da experiência proporcionada pela obra de Dante:
- “experiência imediata da vida” → “imediata” qualifica a experiência, não uma concepção teológica;
- “esclarecimento quanto penetre profundamente até as raízes do sentimento” → “esclarecimento” descreve o tipo de compreensão que se atinge;
- “sem inibições” → modifica o modo como se chega à participação;
- “multiplicidade” → objeto da admiração (“admiração de multiplicidade e grandeza”).
Esses elementos caracterizam a qualidade e a intensidade da experiência estética e humana alcançada na leitura de Dante.
Segundo período — Introduz um conceito distinto:
“a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na ordem divina, dirige-se contra a ordem divina”
Aqui, “baseada na ordem divina” é um adjunto adnominal que qualifica “a indestrutibilidade do ser humano total, histórico e individual” — ou seja, refere-se ao fundamento teológico-figural da concepção de homem na cosmologia dantesca, não às qualidades da experiência descritas no primeiro período.
A assertiva tenta estabelecer uma ponte semântica indevida, como se os termos descritivos da experiência estética (1.º período) fossem atributos da concepção teológica fundada na ordem divina (2.º período). Trata-se de planos argumentativos distintos no raciocínio de Auerbach:
| 1.º período |
2.º período |
| Descreve a experiência do leitor/da obra |
Descreve o fundamento metafísico (ordem divina) e seu paradoxo |
| Termos: imediata, esclarecimento, sem inibições, multiplicidade |
Termo-chave: “baseada na ordem divina” |
A tese central de Auerbach em Mimesis é justamente que a representação realista e individualizada do ser humano em Dante (descrita no 1.º período) acaba por sobrepujar e destruir o próprio arcabouço figural-cristão (descrito no 2.º período). São forças em tensão, não atributos de uma mesma categoria.
Conclusão
A assertiva é ERRADA porque:
- Inclui um termo (“multiplamente”) inexistente no texto;
- Trata uma locução (“sem inibições”) como vocábulo;
- Comete um erro de interpretação textual ao vincular os termos descritivos da experiência estética do primeiro período como atributos da concepção metafísica “baseada na ordem divina” do segundo período — quando, na argumentação de Auerbach, esses são planos distintos e, mais que isso, antagônicos.
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