ERRADO.
Análise detalhada
1. A metáfora nas duas últimas orações
O trecho final do excerto de Auerbach é (corrigindo o evidente erro tipográfico “bompeu-se” → “rompeu-se”):
“A obra de Dante tornou realidade a essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma realização; a poderosa moldura rompeu-se pela supremacia dos quadros que envolvia.”
Aqui, Auerbach constrói uma metáfora pictórica com dois elementos centrais:
| Elemento da metáfora |
Referente no argumento |
| “poderosa moldura” |
A ordem divina / o sistema cristão-figural (a estrutura teológica que enquadra a obra) |
| “quadros” |
As representações vívidas e individuais do ser humano — os retratos realistas, históricos e concretos das personagens |
A metáfora diz: a moldura (= ordem divina / estrutura figural) rompeu-se pela supremacia dos quadros (= representações humanas realistas) que ela própria envolvia.
2. O erro da afirmativa
A afirmativa propõe a seguinte leitura da metáfora:
“a matéria vital da obra ultrapassou os poderosos limites que a própria realidade histórica lhe impunha.”
Há aqui uma inversão conceitual grave. No argumento de Auerbach, os “poderosos limites” que foram rompidos não são os da realidade histórica, mas sim os da ordem divina / essência cristã-figural. É justamente o oposto:
- A “moldura” = o arcabouço teológico-figural (ordem divina).
- Os “quadros” = a matéria vital, humana, histórica, concreta, individual — o realismo de Dante.
Ou seja, no pensamento de Auerbach, a realidade histórica e humana está do lado dos “quadros” (aquilo que rompe os limites), e não do lado da “moldura” (aquilo que impõe os limites). A afirmativa troca os polos da metáfora.
3. O argumento central de Auerbach sobre Dante
Em Mimesis, especialmente no capítulo dedicado a Dante (“Farinata e Cavalcante”), Auerbach sustenta que o método figural — pelo qual eventos e personagens históricos são entendidos como prefigurações de uma verdade transcendente no plano divino — acaba sendo subvertido pela própria genialidade de Dante. Ao retratar os condenados, penitentes e bem-aventurados com tamanha força, individualidade e concretude histórica, Dante faz com que a humanidade das personagens se sobreponha ao esquema teológico que deveria enquadrá-las. O texto do excerto diz isso com clareza:
“A figura do ser humano coloca-se à frente da figura de Deus.”
Portanto, a tensão é entre:
- Realismo humano/histórico (força que rompe) ↔ Ordem divina/figural (moldura que se rompe)
E não entre a “matéria vital” e a “realidade histórica”, como propõe a afirmativa.
4. Observação adicional sobre erros no excerto
Note-se que o excerto reproduzido contém pelo menos dois erros gráficos aparentes — “bompeu-se” (por rompeu-se) e “caída” (possivelmente por cálida) —, além de “ultrapossou” na própria afirmativa (por ultrapassou). Em provas do CACD, é comum que erros ortográficos ou tipográficos sejam inseridos deliberadamente para testar a atenção do candidato, mas o comando aqui pede julgamento do conteúdo interpretativo, que está incorreto pela razão exposta acima.
Conclusão
A afirmativa é ERRADA porque atribui à “realidade histórica” o papel de limite/moldura que é rompido, quando, na metáfora de Auerbach, esse papel pertence à ordem divina / essência cristã-figural. A realidade histórica, ao contrário, está do lado da força que rompe a moldura — é ela a “supremacia dos quadros”, não o enquadramento que foi superado.
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