Questão 8 item 1 - (História do Brasil - 1a Fase - CACD 2024). A expressão "teatro das oligarquias", em referênci

Enunciado:

A crítica à política externa foi arma utilizada pela campanha republicana com o objetivo de desmoralizar o regime monárquico. As intervenções na região do rio da Prata e a Guerra do Paraguai foram temas atacados frequentemente por republicanos, a exemplo de Silva Jardim, Saldanha Marinho e Quintino Bocaiuva.

Relativamente à queda do Império e à Primeira República (1889-1930), julgue os itens que se seguem.

Texto do item:

A expressão “teatro das oligarquias”, em referência à Primeira República, deve ser entendida como um período em que as elites estaduais abriram mão do protagonismo político para garantir o predomínio econômico e a ascendência social que sempre tiveram na trajetória histórica do país.

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ERRADO.


Explicação Didática

A afirmação inverte completamente o sentido da expressão “teatro das oligarquias” ao afirmar que as elites estaduais abriram mão do protagonismo político. Na realidade, ocorreu exatamente o oposto.

O que foi o “teatro das oligarquias”?

A expressão “teatro das oligarquias” é usada pela historiografia para descrever a Primeira República (1889–1930) como um período em que as elites estaduais eram as protagonistas absolutas da vida política nacional, e não meras espectadoras. O termo “teatro” remete à ideia de encenação, de um jogo político marcado por rituais formais de democracia representativa que, na prática, serviam para legitimar o domínio oligárquico.

Mecanismos de domínio político das oligarquias

As oligarquias estaduais não abriram mão do protagonismo político — ao contrário, o acumularam junto ao poder econômico e à ascendência social. Isso se dava por meio de mecanismos bem conhecidos:

  1. Política dos Governadores (ou Política dos Estados): Institucionalizada por Campos Sales (1898–1902), consistia em um pacto de apoio mútuo entre o presidente da República e os governadores estaduais. O presidente não interferia nos estados, e os governadores garantiam bancadas parlamentares fiéis ao Executivo federal. Era a base do sistema oligárquico.

  2. Coronelismo: Conforme a clássica análise de Victor Nunes Leal (Coronelismo, Enxada e Voto, 1949), o coronelismo era um sistema de reciprocidade entre o poder público (estadual/federal) e os chefes políticos locais (coronéis), que controlavam o eleitorado rural por meio de relações de dependência pessoal. Isso garantia que as oligarquias se perpetuassem no poder.

  3. Comissão de Verificação de Poderes: Mecanismo institucional pelo qual a Câmara dos Deputados “verificava” os resultados eleitorais e podia “degolar” (não diplomar) candidatos eleitos que não fossem alinhados às oligarquias dominantes.

  4. Política do Café com Leite: Embora esse conceito seja debatido pela historiografia mais recente (como nos trabalhos de Cláudia Viscardi), refere-se à alternância no poder federal entre representantes das oligarquias de São Paulo (café) e Minas Gerais (leite), os dois estados politicamente mais poderosos da federação.

O erro central da afirmativa

O enunciado afirma que as elites “abriram mão do protagonismo político para garantir o predomínio econômico e a ascendência social”. Isso está errado porque:

  • As oligarquias não precisaram escolher entre poder político e poder econômico — elas detinham ambos simultaneamente.
  • O controle político era, na verdade, instrumento de manutenção e ampliação do poder econômico (por exemplo, por meio de políticas de valorização do café, como o Convênio de Taubaté de 1906).
  • A Primeira República é justamente caracterizada pela fusão entre poder político e poder econômico nas mãos das mesmas elites agrárias.

Conclusão

A expressão “teatro das oligarquias” designa um período de protagonismo político pleno das elites estaduais, que manipulavam as instituições republicanas para perpetuar seu domínio. A ideia de que elas teriam “abriado mão” desse protagonismo contradiz frontalmente o que a historiografia consagrou sobre o período.

Referências doutrinárias recomendadas para o CACD:

  • LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto (1949).
  • CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados (1987) e A Formação das Almas (1990).
  • VISCARDI, Cláudia. O Teatro das Oligarquias (2001) — obra que dá nome ao conceito e problematiza as alianças oligárquicas da Primeira República.
  • FAUSTO, Boris. História do Brasil — capítulos sobre a República Velha.

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