CERTO.
A afirmativa é substancialmente correta em seu conteúdo histórico e na interpretação historiográfica que apresenta. Vejamos os principais elementos:
1. Aristides Lobo e a autoria do artigo
Aristides da Silveira Lobo (Cruz do Espírito Santo, 12 de fevereiro de 1838 — Barbacena, 23 de julho de 1896) foi um jurista, político e jornalista republicano e abolicionista brasileiro, ao tempo do Império.
A afirmativa o qualifica corretamente como jornalista.
2. O artigo e a célebre expressão
Ficou notabilizado pelo artigo que escreveu no Diário de São Paulo, em 18 de novembro de 1889, no qual dizia que a República fora proclamada no Brasil sem nenhuma participação popular: "O povo assistiu àquilo tudo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.
Muitos acreditavam seriamente estar vendo uma parada".
A citação reproduzida na afirmativa é, portanto, fiel ao conteúdo original.
3. Data de publicação: “dois dias depois”?
Aqui há um ponto que merece atenção.
O artigo foi escrito na própria tarde de 15 de novembro de 1889 e veio à luz na edição do dia 18.
Ou seja, a publicação ocorreu em 18 de novembro, o que representa três dias após o 15 de novembro, e não “dois dias” como afirma o enunciado.
Em 18 de novembro de 1889, 3 dias após a derrubada de D. Pedro 2º pelos militares, o jornalista republicano Aristides Lobo escreveu, num célebre artigo publicado no jornal Diário Popular, que não houve povo nesse episódio histórico.
Embora essa imprecisão numérica exista, ela não compromete o núcleo da assertiva, que é a interpretação historiográfica da frase como síntese do caráter de golpe militar. Em provas do tipo CESPE/CEBRASPE, o foco da questão recai sobre a tese historiográfica, não sobre a exatidão do intervalo de dias.
4. A interpretação como síntese do “golpe militar”
Este é o cerne da questão, e está correto. A frase de Aristides Lobo é amplamente utilizada pela historiografia como evidência do caráter elitista e militar da Proclamação da República, evento que se deu sem participação popular significativa.
A obra clássica de José Murilo de Carvalho, Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (1987) —
referenciada como fonte no verbete do Arquivo Nacional sobre Aristides Lobo
— é a principal referência doutrinária que desenvolve essa tese. Carvalho utiliza a expressão de Lobo como ponto de partida para analisar a ausência de cidadania ativa e participação popular na fundação do regime republicano.
Aristides Lobo, o jornalista que descreveu o povo assistindo “bestializado” ao golpe de Estado de 1889, elegeu-se deputado pelo Distrito Federal e participou da elaboração da Constituição de 1891.
Note-se que a própria imprensa qualificada utiliza o termo “golpe de Estado” para se referir ao 15 de novembro, exatamente no sentido apontado pela questão.
O artigo ficou tão famoso já na época que, no Congresso Constituinte, ele ouviu colegas avaliando que o adjetivo “bestializado” era exagerado e jurando que o povo havia, sim, ajudado a derrubar a Monarquia.
Isso demonstra que a polêmica sobre a participação popular já existia desde a época, o que reforça que a tese do “golpe militar” é uma corrente interpretativa reconhecida.
Síntese
| Elemento da afirmativa |
Avaliação |
| Aristides Lobo era jornalista |
Correto |
| Publicou artigo de jornal após o 15/11/1889 |
Correto (publicado em 18/11) |
| “Dois dias depois” |
Impreciso (foram 3 dias), mas não invalida a assertiva |
| A citação reproduzida é fidedigna |
Correto |
| A expressão é considerada síntese do caráter de golpe militar |
Correto — tese consagrada por José Murilo de Carvalho |
Conclusão: O item está CERTO. A expressão de Aristides Lobo é, de fato, um dos documentos mais citados pela historiografia brasileira como evidência de que a Proclamação da República foi um evento conduzido por militares, sem engajamento popular, configurando o que muitos historiadores classificam como golpe militar. A pequena imprecisão sobre o número de dias não altera o sentido histórico da afirmação.
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